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Dia Mundial de Combate à Homofobia

Hoje é o dia de combate mundial à homofobia. Não é à toa que a data existe – o preconceito contra homossexuais é uma dura realidade que deve ser combatida mundialmente. Vale lembrar que o Brasil faz parte desse mundo – parece que alguns órgãos da imprensa brasileira insistem em ignorar solenemente que tal preconceito existe. Pior: a revista Veja publicou uma matéria querendo mostrar que “não há dramas” na nova geração – leia aqui a matéria “Ser jovem e gay. A vida sem dramas”, edição nº 2164, 14 de maio.

A tese da reportagem é extremamente frágil (para dizer o mínimo). Bastaria uma simples “googlada” pra encontrar, por exemplo, experiências como a de Edith Modesto, mãe de um homossexual e fundadora da Associação Brasileira de Pais e Mães de Homossexuais, entidade que trabalha justamente para auxiliar pais e mães a lidarem com a notícia de seus filhos que se assumem homossexuais. Bastaria algumas leituras dos depoimentos desses pais para se chegar ao óbvio: a homossexualidade ainda é um assunto extremamente complexo e doloroso para famílias, cercado de preconceitos de todos os matizes (religiosos, morais, sociais…) e que carece de muito esclarecimento por parte dos órgãos da imprensa.

A Veja perdeu a oportunidade de esclarecer seus leitores, inventando um mundo que não existe. A matéria afirma, por exemplo, que “Declarar-se gay em uma turma ou no colégio de uma grande cidade brasileira deixou de ser uma condenação ao banimento ou às gozações eternas”. Como o repórter pode provar essa afirmação?! De que mundo o repórter está falando?! Para ficar em um exemplo factual que contraria essa tese, um jornal dos alunos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP recentemente causou repúdio ao realizar uma promoção oferecendo um convite a uma “festa brega” aos estudantes do curso que, em troca, jogarem fezes em um gay. Sim, isso acontece no Brasil, na tal “geração tolerância” que prega a matéria da revista Veja.

Neste outro parágrafo, o grau de imprecisão é gritante “Antes fonte de tormento para alunos homossexuais, alvo de piadas, quando não de surras e linchamentos, o colégio se tornou um desses lugares onde, de modo geral, impera a boa convivência com os gays. Um sinal disso é que a ocorrência de casos de bullying por esse motivo tem caído gradativamente.” Reparem que a matéria não diz em que pesquisa ou artigo científico levantou essa estatística, ou quais escolas pesquisou.

A pior parte da matéria, na minha humilde opinião, é esta aqui: “Os jovens que aparecem nas páginas desta reportagem, que em nenhum instante cogitaram esconder o nome ou o rosto, são o retrato de uma geração para a qual não faz mais sentido enfurnar-se em boates GLS (sigla para gays, lésbicas e simpatizantes) – muito menos juntar-se a organizações de defesa de uma causa que, na realidade, não veem mais como sua.” Para quem nunca escreveu matéria na vida, essa parte parece normal, sem erros. Mas sutilmente houve um direcionamento por parte do repórter: ele condensou a “fala” de todos os entrevistados na tese que ele queria provar. Isso é um indício de que o repórter já saiu a campo (para as ruas) para buscar uma amostra de jovens que pudessem corroborar com uma tese: a de que as lutas por direitos LGBT é desnecessária. Os jovens que ele encontrou que são militantes, não apareceram na reportagem. Isso se chama omissão.

Quer dizer que não existem mais jovens brasileiros assumidos e ativistas?! Quer dizer que esses jovens não vão crescer, compartilhar plano de saúde, formar família, ter direito à pensão em caso de morte do companheiro(a), e, de repente, descobrirem que precisam se engajar na causa?

Ok. Vou ficar por aqui. Passo a palavra para a jornalista e poeta Camila Marins, que publicou um belo artigo sobre este tema no no blog: http://camilamarins.blogspot.com/ e que eu reproduzo a seguir.

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Todo REPÚDIO à revista Veja. Viva a luta do movimento LGTTB!
Camila Marins – jornalista e poeta

10/05/2010

A revista Veja publicou nessa semana a seguinte matéria: “Ser jovem e gay. A vida sem dramas.” A reportagem – por meio de depoimentos de jovens de classe média e classe média alta – aponta que os jovens gays têm assumido a homossexualidade sem qualquer razão para temer ou esconder. A revista ainda mostra que ser militante da causa é quase ultrapassado e que a luta é desnecessária. O que a matéria não registra ficou na marginalidade da informação: homofobia existe.

O estranho é que não há um negro ou uma negra na matéria. Ou então jovens pobres. E as travestis? Por que elas não conseguem emprego? Imaginem só uma mulher afirmar que é negra e lésbica. Demais para os leitores de Veja? De acordo com dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), o Brasil é o campeão mundial de crimes contra lésbicas, gays, travestis, transexuais e bissexuais (LGTTB’s): um assassinato a cada dois dias, aproximadamente 200 crimes por ano, seguido do México com 35 homicídios e os Estados Unidos com 25.

Não precisamos apenas de dados para constatar a homofobia. Quantas piadas, xingamentos e brincadeirinhas estão carregadas de preconceito? Basta ligar a televisão que podemos assistir um general das Forças Armadas (mesmo exemplo dado pela revista) afirmando sua posição contrária à presença de gays na instituição. Pior ainda, que País é este que respalda Marcelo Dourado como campeão do Big Brother Brasil e queridinho da população brasileira? Isso porque Dourado, além de comentários e atitudes machistas e homofóbicas, afirmou que heterossexuais não pegam Aids. Fato que fez com que a Globo utilizasse o mesmo espaço para esclarecimentos do Ministério da Saúde.

Se tudo está mais tranquilo, livre de preconceito e agressões, por que o Brasil não aprova a Lei 122/06 que criminaliza a homofobia? Esse preconceito velado é uma das piores tendências e a revista Veja, inegavelmente nojenta, tenta convencer a população que militar no movimento LGTTB é ultrapassado, ‘over’. Ninguém esconde orientação sexual embaixo de bandeiras. Ao contrário, militamos por uma sociedade justa e livre de preconceitos. Desqualificar a luta do movimento LGTTB é, no mínimo, ignorância. Foi por meio da luta do movimento que a homossexualidade deixou de ser considerada doença e perversão e, até hoje, é referência histórica na luta contra a homofobia.

Se não há preconceito, por que pessoas do mesmo sexo não andam sequer de mãos dadas em público? Por que travestis sofrem violência física e moral todos os dias? Por que as travestis não conseguem emprego ou o simples direito de mudar de nome? Por que as mulheres lésbicas sofrem com a falta de um atendimento específico nos hospitais e postos de saúde – elas mal são tocadas, principalmente as negras, além de sofrerem com péssima orientação médica? Por que homens gays são massacrados em instituições, seja exército ou universidade? Por que casais gays não podem se casar ou adotar filhos? Eu mesma, só conheci uma travesti com um emprego que não fosse profissional do sexo. Ela era operadora de telemarketing… Mais uma vez, escondida.

A luta contra a homofobia não deve parar e cada um de nós deve lutar por um mundo melhor livre de opressões. Todo REPÚDIO à revista Veja. Viva a luta do movimento LGTTB!

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Veja coloca frase na boca de especialista

Atualização do dia 5 de maio: a Associação Brasileira de Antropologia também publicou carta pedindo para a revista Veja se retratar – leia aqui.

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro é a nova vítima da “reportagem” cometida pela revista Veja. Os autores da matéria “A farra da antropologia oportunista” (Veja ano 43 nº 18, de 05/05/2010), colocaram na boca de Viveiros a seguinte afirmação: “Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original” .

Viveiros de Castro é um dos cientistas mais respeitados da Antropologia. Ele enviou uma carta para os editores da Veja reclamando que a frase jamais foi dita por ele – mensagem que foi reproduzida no site do Nassif.

A revista Veja, por sua vez, não admitiu a falha – limitou-se a responder, de forma confusa, que resumiu o pensamento do autor com base em um texto que Viveiros teria encaminhado para a Veja, quando este foi procurado pelos repórteres. Leia aqui a resposta da Veja, também publicada no site do Nassif.

O autor, no entanto, reiterou que a tal frase nunca foi dita por ele. Também esclareceu que foi sim, procurado pela Revista, mas que ele se negou a dar entrevista, pedindo aos repórteres que procurassem seus textos já publicados, que, por serem públicos, podem ser citados. A réplica do antropólogo foi publicada no site do Nassif.

Até onde vai o absolutismo da imprensa? Pode um veículo, simplesmente, assassinar reputações, enterrar fatos e distorcer verdades, sem sofrer nenhuma punição? A sociedade precisa debater em que pé de liberdade quer sua imprensa: baseada no respeito, seriedade, credibilidade ou na base do vale-tudo, da mentira, da invenção? Acho que o debate precisa continuar, sem medo de sermos rotulados de “censores”. Calar esse debate é um incentivo à ignorância e à barbárie!

Requentando o factóide

Ficamos até com vergonha de retomar o assunto. Mas, parece que o eixo Folha-Veja-Globo insiste em requentar um factóide que já foi desmontado e que nós já tratamos aqui. Perece que o eixo não compartilha de nossa vergonha. Vergonha de ver jornalistas fazendo esse papel em nome das vontades de um chefe que já perdeu o rumo faz tempo. Chefe que parece apostar – como o chefe de propaganda de um dos regimes de um Eixo passado – que uma mentira contada várias vezes passaria a ser verdade. Engana-se: não neste tempo. O factóide requentado e azedo foi rapidamente desmantelado, mais um vez.

Fiquem com a excelente análise do Azenha sobre o assunto.

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por Luiz Carlos Azenha

A partidarização da mídia brasileira vai além do desapego à verdade factual. Temos jornalistas que, em nome de contemplar “os dois lados”, simplesmente se deixam usar para fazer propaganda política.

O caso envolvendo Lina Vieira é apenas a demonstração mais recente disso. A ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, usou uma entrevista à Folha de S. Paulo para propagar a versão de um encontro com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. O ônus da prova cabia a ela, Lina. Ao depor no Congresso, Lina Vieira não forneceu provas factuais ou testemunhais sobre o que disse na entrevista.

Ou seja, a mídia transformou um factóide em um fato. Fez isso em nome dos partidos de oposição, numa clara estratégia para avançar os interesses partidários.

O factóide ganhou novo fôlego com o surgimento repentino da agenda de Lina Vieira. O encontro, segundo anotação na agenda, teria sido no dia 9 de outubro de 2008 (essa é, pelo menos, a versão da revista Veja). Não é a data anunciada anteriormente por Lina Vieira a senadores da oposição.

Quem é que fez a acusação sem apresentar provas, que se “esqueceu” da agenda e que aparentemente mudou de versão? Lina Vieira. A mídia, no entanto, continua assumindo como verdadeiras as declarações dela. Continua fazendo claramente o jogo dos partidos de oposição.

O fato é que não há novidade no encontro entre Dilma e Lina no dia 9 de outubro. O encontro, um de muitos entre as duas, havia sido admitido anteriormente no depoimento oficial de Lina ao Congresso.

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Falsos dossiês

Um dos golpes mais baixos do atual jornalismo brasileiro é a publicação de matérias com “dossiê”, “documento”, “grampo” ou qualque outra “prova” cuja validade não pode ser comprovada. É verdade que existe o “sigilo da fonte”, pois é preciso preservar os nomes de algumas pessoas, quando o assunto é delicado.

Mas o fato é que em nome desse “sigilo”, o repórter não se dá ao trabalho de investigar a informação que recebe. Se na mão dele cai um “dossiê”, ele vai logo publicando sem se perguntar se o material é legal ou ilegal, sem tentar saber que outras provas mais podem ser usadas para comprovar aquilo que o dossiê está “denunciando”, e sem dar ao leitor as outras informações necessárias ao contexto do que se está publicando.

Esse terreno é fértil para que o jornalista seja um franco atirador – isto é – publique o que lhe der na telha, nem que seja uma mentirinha, uma distorçãozinha, para atacar a reputação de seus desafetos, os únicos bois que têm nome nessa história toda. Afinal, criar uma prova sem que para isso seja necessário apresentar elementos que a sustentem é a coisa mais fácil do mundo. E o pior: aqui no Brasil não há instrumento forte o bastante para inibir a publicação dessas mentiras deslavadas, apelidadas de “dossiês”. Está na hora de perguntarmos qual é a liberdade de imprensa que queremos, até aonde vai o direito de sigilo da fonte, qual é o equilíbrio que queremos de nossa imprensa. Do jeito que as matérias estão sendo produzidas, o jornalismo está se tornando palco para crimes e criminosos.

Fica aqui um apelo para que todos possam cobrar instrumentos de controle de qualidade dentro do jornalismo. E que a cobrança por qualidade não seja taxada de “censura”. Quer publicar dossiê? Publica. Mas vai ter que responder criminalmente se o material se comprovar falso.

Em tempo: no Brasil existem leis que punem injúria, difamação, calúnia e entre outros crimes dessa natureza. Mas são leis frágeis, de aplicação demorada, e ainda assim não cobrem as práticas cada vez mais comuns na imprensa.

Vejam a seguir mais uma denúncia do jornalista Luis Nassif.

Mais um dossiê falso
Luis Nassif
A lógica é a mesma que descrevo na série de Veja (clique aqui), especialmente no capítulo “O Lobista de Dantas”.
Primeiro, o lobista passa o dossiê para Diogo Mainardi.

Ele escreve, Veja garante o espaço. Não é uma ou duas vezes, é mais que isso, é sistemático.
Continue a leitura: http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/09/24/mais-um-dossie-falso/