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Requentando o factóide

Ficamos até com vergonha de retomar o assunto. Mas, parece que o eixo Folha-Veja-Globo insiste em requentar um factóide que já foi desmontado e que nós já tratamos aqui. Perece que o eixo não compartilha de nossa vergonha. Vergonha de ver jornalistas fazendo esse papel em nome das vontades de um chefe que já perdeu o rumo faz tempo. Chefe que parece apostar – como o chefe de propaganda de um dos regimes de um Eixo passado – que uma mentira contada várias vezes passaria a ser verdade. Engana-se: não neste tempo. O factóide requentado e azedo foi rapidamente desmantelado, mais um vez.

Fiquem com a excelente análise do Azenha sobre o assunto.

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por Luiz Carlos Azenha

A partidarização da mídia brasileira vai além do desapego à verdade factual. Temos jornalistas que, em nome de contemplar “os dois lados”, simplesmente se deixam usar para fazer propaganda política.

O caso envolvendo Lina Vieira é apenas a demonstração mais recente disso. A ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, usou uma entrevista à Folha de S. Paulo para propagar a versão de um encontro com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. O ônus da prova cabia a ela, Lina. Ao depor no Congresso, Lina Vieira não forneceu provas factuais ou testemunhais sobre o que disse na entrevista.

Ou seja, a mídia transformou um factóide em um fato. Fez isso em nome dos partidos de oposição, numa clara estratégia para avançar os interesses partidários.

O factóide ganhou novo fôlego com o surgimento repentino da agenda de Lina Vieira. O encontro, segundo anotação na agenda, teria sido no dia 9 de outubro de 2008 (essa é, pelo menos, a versão da revista Veja). Não é a data anunciada anteriormente por Lina Vieira a senadores da oposição.

Quem é que fez a acusação sem apresentar provas, que se “esqueceu” da agenda e que aparentemente mudou de versão? Lina Vieira. A mídia, no entanto, continua assumindo como verdadeiras as declarações dela. Continua fazendo claramente o jogo dos partidos de oposição.

O fato é que não há novidade no encontro entre Dilma e Lina no dia 9 de outubro. O encontro, um de muitos entre as duas, havia sido admitido anteriormente no depoimento oficial de Lina ao Congresso.

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Caso Lina-Dilma: omissão e distorção

Lina ou Dilma: quem está dizendo a verdade?

Tudo começou quando o jornal “Folha de São Paulo” publicou, no domingo, 9 de agosto, notícia com o título “Dilma quis agilizar apuração contra Sarney, diz Lina Vieira”. Na matéria, assinada por Leonardo Souza e Andreza Matais, a Folha explica que teria recebido, 3 semanas atrás, a denúncia de que a Ministra Dilma Roussef teria pedido à Lina Vieira, ex-secretária da Receita Federal, que a investigação realizada pelo órgão nas empresas da família Sarney fosse concluída rapidamente.

Pois bem, os jornalistas procuraram Lina e Dilma para confirmarem se de fato essa reunião (ou esse pedido) ocorreu ou se era algum boato. Segundo a Folha daquele dia, 9 de agosto, Lina Vieira teria não só confirmado esses fatos como também estaria interessada em contar como foi essa conversa. E o que ela disse? Segundo a Folha, foram essas as informações:

“Falamos sobre amenidades e, então, ela me perguntou se eu podia agilizar a fiscalização do filho do Sarney.” A ex-secretária disse que entendeu como um recado “para encerrar” a investigação, o que se recusou a fazer. “Fui embora e não dei retorno. Acho que eles não queriam problema com o Sarney.”
Segundo Lina, o pedido de Dilma ocorreu cerca de dois meses após o fisco ter recebido ordem judicial para devassar as empresas da família Sarney.

Leia aqui a matéria na íntegra.

O tal encontro foi negado pela Ministra Dilma Rousseff. Mesmo tendo a palavra de uma Ministra contra a de uma ex-secretária da Receita, a Folha noticiou essa história assim, sem elementos mais consistentes para se comprovar uma ou outra versão. Até aqui podemos dizer que há uma notícia equilibrada. Pobre de informações, é verdade, mas equilibrada, uma vez que os repórteres tiveram a dignidade de colocar as duas versões do fato que está em questão.

A notícia tomou tal proporção que Lina Vieira foi chamada para depor na Comissão de Constituição e Justiça.
Será que ela estava mesmo dizendo a verdade? Dilma disse que ela deveria apresentar provas – afinal, cabe a acusação apresentar provas. Qualquer pessoa que tenha um mínimo de senso de justiça sabe que é assim que funciona: o acusador é que apresenta as provas. E Lina estava acusando Dilma. Onde estaria então, a prova dessa reunião? Era o que todos queriam saber.

Pois bem, quem assistiu ao vivo pela TV Senado ou pela internet, ficou sabendo: em cinco horas de depoimento à CCJ, Lina Vieira foi incapaz de produzir uma prova sequer de que o encontro ocorrera. Isso sem contar as imprecisões sobre o tal encontro. Os vídeos já estão publicados no youtube, em cinco partes, para quem quiser verificar sem o filtro da mídia. Vejam o primeiro vídeo da série:

E aqui entra a distorção coletiva do jornalismo brasileiro: mesmo sabendo que a transmissão do depoimento de Lina estava sendo feita ao vivo pela TV Senado e pela internet, os jornais ousaram publicar manchetes acassianas sobre o caso, isto é, repleta de obviedades e de coisas que já eram conhecidas. O fato novo – que a Lina não apresentou provas – foi relegado para as letras miúdas. Quem não assistiu ao depoimento ao vivo, ficou com as seguintes versões:

Manchete da Folha reitera versão de Lina apesar da falta de provas

Folha de São Paulo: Lina vê “ingerência descabida” de Dilma e reafirma o encontro
O Estado de S.Paulo: Lina diz que Dilma fez pedido ”incabível”
O Globo: Ex-secretária confirma reunião e aceita acareação com Dilma
Correio Braziliense: Furacão Lina dura 5 horas
Jornal do Brasil: Lina Vieira depõe contra Dilma sem provas no Senado

Todas as informações acima são “verdadeiras” – mas a manchete que mais se aproximou da verdade em todo o seu contexto foi a do Jornal do Brasil. Os demais jornais resolveram colocar na manchete a confirmação de versões que todos já conheciam (as acusações de Lina) ou irrelevâncias (a duração do depoimento), deixando o fato mais relavante (a falta de provas) para as letras miúdas.

Uma notícia falsa pode ser escrita com informações verdadeiras – esse é o tipo de distorção muito comum em nossa imprensa – e muito sutil também. Nem todos conseguem reconhecer essa malandragem de omitir a informação principal, relegando-a para o segundo parágrafo, e eleger obviedades para as manchetes.

Houve mesmo a reunião entre Dilma e Lina? Não sabemos! Pode ser sim, que houve a tal reunião, mas os jornais não conseguem ir alem do jornalismo declaratório, isto é, baseados apenas na declaração de uma pessoa, sem nenhum outra fato que possa sustentar a versão apresentada.

Nota: outras questões foram ricamente abordadas pela internet, como por exemplo o fato de a Ministra Dilma não estar em Brasília no dia em que Lina disse ter ocorrido a tal reunião. Vejam mais detalhes no excelente artigo do Maurício Caleiro: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=552IMQ002.