Enquete sobre as maiores cascatas publicadas na imprensa em 2009

O blogueiro Ivson Alves publicou em seu blog “Coleguinhas uni-vos” uma lista com as maiores cascatas publicadas na imprensa em 2009. Veja a lista a seguir e vote na enquete.

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Chegou a hora de escolher a maior cascata de 2009! São 13 concorrentes ao troféu virtual King of the Kings e você pode votar na enquete aí do lado em até 3 opções. A votação termina em 5 de fevereiro. Abaixo, para dar uma refrescada na memória, vão os resumos das cascatas concorrentes. Não deixe de votar! (Podem ficar tranqüilos que não vou chatear vocês para votar tanto quanto o Ancelmo Gois, que abusa da paciência dos leitores pedindo para votarem nos tais mulatos e mulatas).

-> Acordo Força Sindical-Fiesp (O Globo): Jornal saiu com manchete afirmando que a Força Sindical e a Fiesp tinham chegado a um acordo sobre a redução de salário e de jornada a fim de presercar os empregos durante a crise. As duas partes negaram a notícia no mesmo dia.

-> Brasileira torturada na Suíça (Blog do Noblat): Brasileira afirmou que fora torturada por neonazistas em estação de trem. Blogueiro do Globo On Line publicou sem apurar. A mulher está sendo processada pela Justiça suíça por falsa acusação.

-> Repatriamento do boxeadores cubanos (Elio Gaspari): Colunista afirmou que governo entregou os atletas aos cubanos. Pouco depois, em entrevista concedida à TV Globo na Alemanha, um dos boxeadores não só desmentiu a informação como afirmou que o governo lhe ofereceu asilo e intermediação para trazer a família. Ele é que recusou por medo de que a manobra não desse certo. Ainda assim, o colunista continua insistindo em sua versão.

-> “Ditabranda” (Folha): Em editorial, o jornal afirmou que os militares que governaram o país entre 1964 e 1985 não promoveram uma ditadura, mas uma “ditabranda”, por não terem apelado para a violência tanto assim.

-> Remoção das favelas (O Globo): Jornal voltou a defender a remoção dos moradores das favelas cariocas para a periferia da cidade, como fizera Carlos Lacerda há mais de 40 anos, criando “favelas horizontais” como Cidade de Deus e Vila Kennedy.

-> Ficha da Dilma (Folha): Jornal publicou como ficha do DOI-Codi em que a ministra da Casa Civil aparecia como tendo planejado o sequestro do então ministro Delfim Netto e participado de outras ações armadas. Depois, o próprio jornal admitiu que não checara a veracidade da ficha.

-> Blog da Petrobras ameaça a liberdade de imprensa (Vários): Cansada de ver suas respostas às acusações que sofriapor parte dos grandes jornais serem ignoradas ou distrocidas, a empresa criou um blog em que mostrava as respostas que enviava Às redações, antes mesmo de as matérias serem publicadas. Após muito chororô dos coleguinhas, a petroleira passou a esperar a publicação das matérias para pôr a sua versão na Rede.

-> “República sindicalista” na Petrobras (O Globo): Jornal tentou provar que a área de publicidade da estatal era dominada por pessoas com história sindical. A empresa demonstrou, em seu blog, que o número de pessoas com esse perfil em cargos de chefia era ínfimo não só no setor, como em toda a empresa.

-> Marina Silva critica política social do governo (Vários): Ministra teria criticado a atuação do atual governo na área social. Ela desmentiu a notícia no mesmo dia de sua publicação.

-> O encontro Dilma-Lina (Vários): Lina Spíndola, ao ser demitida da secretaria da Receita Federal, denunciou ter sido pressionada, em encontro pessoal, pela ministra-chefe da Casa Civil para não realizar pesquisa profunda sobre a família Sarney. Até hoje, ela não conseguiu provar que esteve com a ministra no dia e na hora em que disse ter ocorrido o encontro.

-> Vale x Lula (Vários): O governo teria tentando depor o presidente da Vale porque a empresa não estaria investindo durante a crise. Matérias e mais matérias sustentadas apenas por fontes em off, pois todos os envolvidos negaram várias vezes o problema e nenhum fato o comprovou.

-> César Banjamin acusa Lula de tentativa de estupro (Folha): Em artigo assinado comentando o filme sobre a vida do Nove-Dedos, ex-guerrilheiro afirma que o presidente da República tentou estuprar um rapaz durante a prisão em 1980. O fatode teria sido confessado pelo próprio Lula numa conversa com testemunhas> no entanto, nenhuma delas confirmou o teor das acusações e nenhuma das dezenas de pessoas que estavam na delegacia na época soube da suposta curra.

-> Cobertura do DEMsalão pelos jornais de Brasília (Correio Braziliense e Jornal de Brasília): Nos dois primeiros dias da cobertura do escândalo, os principais jornais da capital federal não mencionaram o nome do governador José Roberto Arruda, apesar de ele ter aparecido na TV recebendo as propinas.

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A Especialista

A jornalista Lucia Hippolito é especialista em tudo. Dizem que é formada em História e em Ciências Políticas. Mas o que Lucia entende mesmo é de energia. Alvoroçada para dar logo uma explicação para o “apagão” de ontem, a “enciclopédica” Lucia foi logo colocando a culpa no Governo e nas classes baixas que, segundo ela, com a isenção de IPI para a “Linha Branca” estaria comprando mais equipamentos eletrodomésticos e sobrecarregando o sistema. Veja o comentário que um navegante deixou no Blog do Nassif:

Por Luciano Prado

O pior se deu ontem à noite quando a jornalista Lucia Hippolito entrou ao vivo pela CBN/Globo, direto de sua residência para informar ao público ouvinte que o problema do blackout ocorrera porque o presidente Lula autorizara a isenção de impostos da linha branca fazendo com que muitos aparelhos (novos) em funcionamento sobrecarregassem o sistema.

A especialista também alertou para a grave dependência brasileira aos combustíveis fósseis, havendo necessidade de substituição dessa matriz energética.

Já imaginaram, substituir aquele rio de petróleo que move as turbinas de Itaipu por água?

É informação jornalística, de primeira, na veia. Direto da CBN/Globo, a rádio de “troca” notícia.”

Requentando o factóide

Ficamos até com vergonha de retomar o assunto. Mas, parece que o eixo Folha-Veja-Globo insiste em requentar um factóide que já foi desmontado e que nós já tratamos aqui. Perece que o eixo não compartilha de nossa vergonha. Vergonha de ver jornalistas fazendo esse papel em nome das vontades de um chefe que já perdeu o rumo faz tempo. Chefe que parece apostar – como o chefe de propaganda de um dos regimes de um Eixo passado – que uma mentira contada várias vezes passaria a ser verdade. Engana-se: não neste tempo. O factóide requentado e azedo foi rapidamente desmantelado, mais um vez.

Fiquem com a excelente análise do Azenha sobre o assunto.

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por Luiz Carlos Azenha

A partidarização da mídia brasileira vai além do desapego à verdade factual. Temos jornalistas que, em nome de contemplar “os dois lados”, simplesmente se deixam usar para fazer propaganda política.

O caso envolvendo Lina Vieira é apenas a demonstração mais recente disso. A ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, usou uma entrevista à Folha de S. Paulo para propagar a versão de um encontro com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. O ônus da prova cabia a ela, Lina. Ao depor no Congresso, Lina Vieira não forneceu provas factuais ou testemunhais sobre o que disse na entrevista.

Ou seja, a mídia transformou um factóide em um fato. Fez isso em nome dos partidos de oposição, numa clara estratégia para avançar os interesses partidários.

O factóide ganhou novo fôlego com o surgimento repentino da agenda de Lina Vieira. O encontro, segundo anotação na agenda, teria sido no dia 9 de outubro de 2008 (essa é, pelo menos, a versão da revista Veja). Não é a data anunciada anteriormente por Lina Vieira a senadores da oposição.

Quem é que fez a acusação sem apresentar provas, que se “esqueceu” da agenda e que aparentemente mudou de versão? Lina Vieira. A mídia, no entanto, continua assumindo como verdadeiras as declarações dela. Continua fazendo claramente o jogo dos partidos de oposição.

O fato é que não há novidade no encontro entre Dilma e Lina no dia 9 de outubro. O encontro, um de muitos entre as duas, havia sido admitido anteriormente no depoimento oficial de Lina ao Congresso.

Continue lendo no Vi o Mundo

Mais uma vez a grande mídia criminaliza os movimentos sociais

Como em todos os períodos da história desse país, a grande mídia sempre criminalizou os movimentos sociais. Não irei citar nem os episódios da época da ditadura, mas alguns dos mais recentes: Casa das Pombas, Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, Movimento Passe Livre e Movimento de Resistência Fora Noroeste. Claro, não poderíamos deixar de esquecer o Movimento dos Sem Terra, figurinha carimbada que sempre foi a escória da grande imprensa. Mais uma vez, o MST é alvo de bombardeio e linchamento dos jornalões. Critérios de noticiabilidade? Isso é conto da carochinha. O que vemos é uma verdadeira manipulação dos fatos e imagens. Mas agora esse caso do MST apresenta um motivo especial: abrir os flancos para bater no governo. Tudo em nome das eleições, sempre ela. Não bastou a criação da CPI da Petrobras, que por sinal está sendo um fracasso, agora querem criar a CPI do MST. E dessa vez o troféu jornalismo derrota vai para o Jornal Nacional. Abaixo, segue o excelente texto do cineasta e blogueiro, Mauricio Caleiro que mata a pau esse episódio que envolve o MST.

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MST e laranjas
O MST é detestado por todos: da direita ruralista à esquerda chavista, passando por tucanos, petistas, psolentos, verdes, azuis e amarelos. Mesmo os que fingem apoiar o MST o detestam.

Isso porque há uma antipatia ancestral e inata contra o MST, esse arquétipo de nosso inconsciente coletivo, esse cancro irremovível que insiste em nos lembrar, mesmo nos períodos de bonança, que fomos o último país do mundo a abolir a escravidão e continuamos sendo uma porcaria de nação que jamais fez a reforma agrária.
O MST é o espelho que reflete o que não queremos ver.

Há duas questões, na vida nacional, que contradizem qualquer discurso político da boca pra fora e revelam qual é, mesmo, de verdade, a tendência ideológica de cada um de nós, brasileiros: a violência urbana e o MST. Diante deles, aqueles que até ontem pareciam ser os mais democráticos e politicamente esclarecidos passam a defender que se toque fogo nas favelas, que se mate de vez esse bando de baderneiros do campo, PORRA, CARAJO, MIERDA, MALDITOS DIREITOS HUMANOS!

O MST nos faz atentar para o fato de que em cada um de nós há um Esteban de A Casa dos Espíritos; há o ditador, cuja existência atravessa os séculos, de que nos fala Gabriel García Márquez em O Outono do Patriarca; há os traços irremovíveis de nossa patriarcalidade latinoamericana, que indistingue sexo, raça, faixa etária ou classe social:

O MST é o negro amarrado no tronco, que chicoteamos com prazer e volúpia.

O MST é Canudos redivivo e atomizado em pleno século XXI.

O MST é a Geni da música do Chico Buarque – boa pra apanhar, feita pra cuspir – com a diferença de que, para frustração de nossa maledicência, jamais se deita com o comandante do zeppelin gigante.

E, acima de tudo, O MST é um assassino de laranjas!

E ainda que as laranjas fossem transgênicas, corporativas, grilheiras, estivessem podres, com fungos, corrimento, caspa e mau hálito, eles têm de pagar pela chacina cítrica! Chega de impunidade! Como o João Dória Jr., cansei!
Joro pungente
Afinal, foi tudo registrado em imagens – e imagens, como sabemos, não mentem. Estas, por sua vez, foram exibidas numa reportagem pungente do Jornal Nacional – mais um grande momento da mídia brasileira -, merecedora, no mínimo, do prêmio Pulitzer. Categoria: manipulação jornalística. Fátima Bernardes fez aquela cara de dominatrix indignada; seu marido soergueu uma das sobrancelhas por sob a mecha branca e, além dos litros de secreção vaginal a inundar calcinhas em pleno sofá da sala, o gesto trouxe à tona a verdade inextricável: os “agentes“ do MST são um bando de bárbaros.

(Para quem não viu a reportagem, informo,a bem da verdade, que ela cumpriu à risca as regras do bom jornalismo: após uns dez minutos de imagens e depoimentos acusando o MST, Fátima leu, com cara de quem comeu jiló com banana verde, uma nota de 10 segundos do MST. Isso se chama, em globalês, ouvir o outro lado.)

Desde então, setores da própria esquerda cobram do MST sensatez, inteligência, que não dirija seu exército nuclear assassino contra os pobres pés de laranja indefesos justo agora, que os ruralistas tentam instalar, pela 3ª vez, como se as leis fossem uma questão de tanto bate até que fura, uma CPI contra o movimento (afinal, é preciso investigar porque o governo “dá” R$155 milhões a “entidades ligadas ao MST”, mesmo que ninguém nunca venha a público esclarecer como obteve tal informação, como chegou a esse número, que entidades são essas nem qual o grau de sua ligação com o MST: O Incra, por exemplo, está nessa lista como ligado ao MST?).
A insensatez dos miseráveis
Ora, o MST é um movimento social nascido da miséria, da necessidade e do desespero. Eles estão em plena luta contra uma estrutura agrária arcaica e concentradora. Não se pode esperar sensatez de movimentos sociais da base da pirâmide social, que lutam por um direito básico do ser humano. Pelo contrário: é justamente a insensatez, a ousadia, a coragem de desafiar convenções que faz do MST um dos únicos movimentos sociais de fato transgressores na história brasileira. Pois quem só protesta de acordo com os termos determinados pelo Poder não está protestando de fato, mas sendo manipulado. Se os perigosos agentes vermelhos do MST tivessem sensatez, vestiriam um terno e iriam para o Congresso fazer conchavos, não ficariam duelando com moinhos de vento, digo, pés de laranja.

Mas é justamente por isso que o MST incomoda a tantos: ele, ao contrário de nós, ousa desafiar as convenções: ele é o membro rebelde de nossa sociedade que transgride o tabu e destroi o totem. Portanto, para restituição da ordem capitalista/patriarcal e para aplacar nossa inveja reprimida, ele tem de ser punido. Ele é o outro.

Quantos de nós já se perguntaram como é viver sob lonas e gravetos – em condições piores do que nas piores favelas -, à beira das estradas, em lugares ermos e remotos, sujeito a ataques noturnos repentinos dos tanto que os detestam? Quantos já permaneceram num acampamento do MST por mais do que um dia, observando o que comem (e, sobretudo, o que deixam de comer), o que lhes falta, como são suas condições de vida?

Poucos, muito poucos, não é mesmo? Até porque nem a sobrancelha erótica do Bonner nem o olhar-chicote da Fátima jamais se interessaram pelo desespero das mães procurando, aos gritos, pelos filhos enquanto o acampamento arde em fogo às 3 da madrugada, nem pelas crianças de 3,4 anos que amanhecem coberta de hematomas dos chutes desferidos pelos jagunços invasores, ao lado do corpo de seus pais, assassinados covardemente pelas costas e cujo sangue avermelha o rio.

Para estes, resta, desde sempre, a mesma cova ancestral, com palmos medidas, como a parte que lhes cabe neste latifúndio.

Para a mídia, pés de laranja valem mais do que a vida humana, quero dizer, a vida subumana de um miserável que cometeu a ousadia suprema de lutar para reverter sua situação.

Mas os bárbaros, claro está, são o MST.

Por isso, haja o que houver, o MST é o culpado.

Folha insiste na gripe suína

O jornalista Luiz Antônio Magalhães não deixou passar em branco essa tentativa da Folha de, mais uma vez, querer encontrar gripe suína onde não há. Para isso, a Folha utilizou um método risível (pra não dizer outra coisa). Acham que estou exagerando? Pois leiam a seguir a análise certeira do jornalista e editor executivo do Observatório da Imprensa, Luiz Antônio Magalhães.

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Folha não se emenda na gripe suína
A matéria reproduzida abaixo saiu escondidinha, no segundo caderno do Cotidiano da Folha de S. Paulo, e não mereceu chamada de capa. É inacreditável que o jornal tenha feito o que fez neste sábado. Resumindo a história, depois de afirmar, no dia 19 de julho, na primeira página, que 35 milhões de brasileiros seriam contaminados pela gripe suína, o jornal mandou a campo o seu próprio instituto de pesquisas, o Datafolha, para realizar uma das coisas mais ridículas da história do jornalismo brasileiro.

Sim, porque a enquete mesmo é algo surreal: o Datafolha foi para as ruas perguntar às pessoas se, nos últimos meses, elas tiveram “sintomas de gripe”. Com o resultado em mãos, a Folha escreveu outra pérola que não resiste a dois minutos de análise. Segundo o jornal, “27% dos brasileiros tiveram sintomas de gripe desde junho”, o que equivale a 51,3 milhões de pessoas. Bem, aí o jornal faz uma continha malandra, diz que 40% desses casos devem ser da variante suína e chega aos 20 milhões de infectados. No meio do texto, a ressalva de que o “auto-diagnóstico” não é propriamente a melhor maneira de se aferir as coisas, mas, enfim, está lá o número grandão – 20 milhões, uma enormidade, mas ainda assim, 15 milhões abaixo do “previsto” pelo jornal em julho.

É evidente que a pesquisa não vale coisa alguma e que o número está superdimensionado. Dos tais 27% dos entrevistados (e não de toda a população brasileira, conforme a própria pesquisa mostra, porque não foram pesquisados os menores de 16 anos) que disseram ter tido sintoma de gripe, é bastante provável que um percentual expressivo tenha respondido afirmativamente mesmo no caso de ter passado apenas por um mero resfriado, muito mais comum do que a gripe, conforme apontam os especialistas. Ademais, a estupidez cometida pelo jornal não se sustenta pela taxa de letalidade da doença. Se de fato fossem 20 milhões de brasileiros com a suína, apenas na faixa acima de 16 anos, admitindo a taxa de 0,4%, já deveriam ter morrido 80 mil pessoas em consequência da doença. Só que não morreram nem duas mil. Realmente, espanta que um jornalista inteligente, estudado e bem formado como Hélio Schwartsman se preste ao triste papel de assinar uma sandice como a que se pode ler a seguir.

27% dos brasileiros tiveram sintomas de gripe desde junho

Pesquisa Datafolha mostra que, nos últimos três meses e meio, o equivalente a 51,3 milhões de pessoas experimentou quadro gripal

Até julho, o vírus da gripe suína correspondia a 40% dos casos leves, o que sugere que 20,5 milhões de pessoas podem ter contraído a doença

HÉLIO SCHWARTSMAN
DA EQUIPE DE ARTICULISTAS

Pesquisa Datafolha mostra que 27% dos brasileiros com mais de 16 anos relataram ter tido “sintomas de gripe” entre junho e a data da entrevista (de 9 a 11/9). Extrapolando essa porcentagem para a população geral, isso significa que algo em torno de 51,3 milhões de pessoas experimentaram um quadro gripal nos últimos três meses e meio.

Mais ou menos a metade delas (14% dos entrevistados, ou cerca de 26,6 milhões) declararam ter procurado um médico -o que explica, com folga, a superlotação dos hospitais.

Evidentemente, nem todo “sintoma de gripe” é de fato provocado por vírus, nem todo vírus respiratório é o da gripe e nem toda gripe tem como agente causador o H1N1 pandêmico.

Dados do Ministério da Saúde sobre os casos menos graves indicam que o novo H1N1 respondia por 40% das amostras processadas até o fim de julho. A partir daí, a pasta concluiu que o esforço de fazer o diagnóstico laboratorial de quadros leves não compensava e passou a testar só os mais graves. Nessa situação, no auge da epidemia (primeira semana de agosto), o H1N1 foi identificado como causador de 58% das síndromes respiratórias agudas graves notificadas e testadas.

Se aplicarmos o “deflator” de 40% aos 51,3 milhões de quadros gripais, chegamos a 20,5 milhões, que representam, na opinião de infectologistas, uma estimativa bruta defensável dos casos de gripe suína ocorridos até o momento.

“Não dá para publicar um artigo científico no “New England Journal of Medicine”, mas, com as devidas ressalvas, [esse método] serve para dar uma ideia do tamanho da epidemia aqui”, disse Esper Kallas, da USP e do Hospital Sírio-Libanês.

O principal problema, aponta, é que não dá para equiparar o autodiagnóstico a um diagnóstico médico. “Mas não há como avançar mais numa entrevista simples [como a do Datafolha].”
O médico afirmou também que não se surpreenderia nem se os 27% tivessem tido a gripe suína. Ele disse que já há estudos apontando para uma circulação de 30% do H1N1 no Chile.
Celso Granato, do Laboratório Fleury, que ajudou a Folha a preparar o questionário do Datafolha, considerou os 27% um índice elevado: “Não esperava tanto!”. Relativizou o problema do autodiagnóstico lembrando que o ministério acaba de fazer uma longa campanha na TV para explicar o que é gripe.
Também disse que o índice de 14% de procura por um médico sugere consistência no comportamento dos entrevistados. “Ninguém vai ao médico por um resfriadinho”, afirmou.

Nordeste
O diretor do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, David Uip, surpreendeu-se com a porcentagem de quadros gripais apurada no Nordeste, que superou a do Sudeste. “Só isso já merece uma investigação.” Uma possibilidade aventada pelo médico é que a ampla repercussão midiática da epidemia tenha contribuído para inflar os números nordestinos.

A literatura médica é quase unânime em apontar incidência decrescente de gripe conforme se avança para o norte. Também não se verificou, no Nordeste, pressão tão forte sobre o sistema de saúde quanto a observada no Sul e no Sudeste. Kallas, porém, disse que, com a circulação cada vez maior de pessoas entre cidades e regiões, não esperaria taxas tão menores no Nordeste. Vale ainda observar que os 51,3 milhões constituem uma extrapolação conservadora, pois a metodologia do Datafolha não considera a população até os 16 anos, justamente a mais suscetível a contrair vírus respiratórios em geral. Esse recorte etário representa cerca de 25% da população.

Leia no Blog Entrelinhas:
http://blogentrelinhas.blogspot.com/2009/10/folha-nao-se-emenda-na-gripe-suina.html

A Veja, sempre ela

Se a Istoé preza pela auto-ajuda e omissão de assuntos relevantes, a Veja não deixa absolutamente nada passar, é a vedete da direita e caminha para se tornar uma Mídia Sem Máscara do B.

O artigo abaixo do Observatório da Imprensa é ilustrativo e certeiro.

Para a Veja, Chavez é o Demônio, ao tempo em que o Capital é divino. Movimentos Sociais existem para serem esmagados e para tumultuar enquanto a Classe Mérdia em marcha é algo lindo de se ver, os nobres repórteres (sic) se lembram com saudades e lágrimas nos olhos da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”.

Enfim, a Veja reúne o que há de mais fino do fascismo tupiniquim. Vomitar [não] é opcional.

Duas páginas de fantasmas

Por Diego B. Cruz em 6/10/2009

Que a revista Veja seja o semanário representante da direita mais tosca não é novidade para ninguém. Surpreende, porém, o nível cada vez mais baixo que a publicação vem atingindo no último período.

A revista, por exemplo, vocifera contra a atualização dos índices de produtividade exigida pelo MST, mesmo que a medida possa atingir uma extrema minoria dos latifundiários. O MST, aliás, que a publicação adora demonizar. Em relação ao golpe de Honduras, Veja não se envergonha em se colocar ao lado dos golpistas que depuseram Manuel Zelaya, isolando-se até mesmo entre os seus pares ideológicos. Veja se coloca ao lado de representantes folclóricos, como Olavo de Carvalho e seu colunista preferido, Diogo Mainardi.

Na edição nº 2132, a revista dedica sua capa a atacar a “intervenção” do Brasil no que seriam “assuntos internos” de Honduras. Critica o “subimperialismo” do governo brasileiro e chega ao cúmulo de comparar o caso com a invasão militar na República Dominicana em 1965, quando a ditadura enviou tropas ao país caribenho a fim de auxiliar um golpe orquestrado pelos EUA. Curiosamente, a revista não demonstra a mesma curiosidade histórica quando o mesmo governo Lula enviou tropas ao Haiti cinco anos atrás, quando, aí sim, a comparação faria sentido.

Uma frase absurda que não foi dita

Mas uma outra matéria chama atenção na mesma edição. Lá pelas tantas, um texto de duas páginas tasca o título “O socialismo não morreu (para eles)”, cuja tentativa parece a de soar irônico. A matéria traz como ilustração uma montagem com representantes de vários partidos de esquerda, vestidos de médicos, ao redor de um Karl Marx deitado numa cama de hospital. E o tom da “matéria” não poderia ser outro. O jornalista Fábio Portela tenta desqualificar e ironizar os partidos de esquerda – e para isso vale tudo.

Primeiro, o repórter coloca no mesmo balaio partidos tão diferentes como o PCdoB, PSOL, PSTU, PCB e PCO. Mas para Veja não importa, nem mesmo que um deles componha a base do governo. A matéria tenta impingir uma certa visão fatalista à esquerda. “Apesar de animados, os nossos marxistas não pretendem se esforçar para acelerar a Grande Revolução Vermelha (sic). Acham que basta sentar e esperar, visto que a marcha da história se encarrega de fazer o trabalho pesado”, escreve, mostrando pouco conhecimento do que foi produzido pelo marxismo sobre o funcionamento capitalista, seus limites e até mesmo as mudanças que o sistema tem adotado para poder sobreviver às suas contradições fundamentais e manter a taxa de lucro das empresas.

O texto mostra o que Veja entende por jornalismo. A revista recheia a matéria com falas de supostos entrevistados, frases tão desconexas quanto inverossímeis. É desta forma que o presidente do PSTU, José Maria de Almeida, por exemplo, aparece dizendo: “Ela (a revolução) está chegando, e nós estamos preparados”. Uma frase, evidentemente, absurda. E que não foi dita.

Um respeitoso e comportado repórter

Veja transforma longas entrevistas em frases esparsas, desconexas e sem o menor sentido. Na verdade, as entrevistas e telefonemas não servem para que os partidos expressem seus pontos de vista, o que se poderia imaginar de um jornalismo inteligente ou simplesmente comprometido com o debate de idéias. Não é este o caso. As “entrevistas” servem tão somente para emoldurar as idéias iniciais encomendadas pela revista: os partidos de esquerda são nanicos, a esquerda é lunática, o socialismo morreu. Ataques que fazem parte da pauta permanente da revista, assim como matérias sobre o “primeiro beijo” são publicadas pelas revistas adolescentes a cada seis meses.

O jornalista Perseu Abramo costumava dizer que a imprensa se comportava como um partido político. E Veja comprova claramente isso. Como qualquer partido, tem lá os seus quadros. O jornalista Fábio Portela, um dos editores da revista, por exemplo, é escalado para escrever sobre Hugo Chávez, Venezuela e demais pautas tão caras à direita folclórica. Seus textos, em geral, são recheados de ironias e chegam ao deboche, como quando chama Ivan Pinheiro, do PCB, de “Ivan, o Terrível”.

A não ser quando decide variar um pouco de pauta, talvez para espairecer, e se põe a escrever sobre o tucano presidenciável Aécio Neves, como na primeira edição de agosto último. O sempre irônico e espirituoso editor dá lugar, subitamente, a um respeitoso e comportado repórter. A matéria sobre as gratificações de desempenho a servidores implementadas pelo tucano é recheada de expressões como “espírito público”, “meritocracia”, “resultados expressivos”, entre outras. Sem o menor pingo de ironia.

Escancarando o caráter

A imprensa de esquerda, em geral, é criticada e tachada de “panfleto”. Isso porque tem opinião, se coloca claramente em defesa de uma posição e expressa isso sem máscaras de objetividade. O panfleto tem sua função na vida política e tampouco não pode ser desqualificado. Mas a diferença entre um panfleto e um jornal é que, enquanto o panfleto lança algumas poucas ideias a fim de persuadir, o jornal ou uma revista traz informação, parte da apuração dos fatos, análise e dados, ainda que não possa ser imparcial.

Veja, por esse critério, é mais um panfleto que uma revista. E, certamente, não tem nada a ver com jornalismo.

Voltando à “matéria” sobre os partidos de esquerda, uma questão se sobressai. Se “os esquerdistas radicais formam um grupo tão curioso quanto inofensivo”, como diz o texto, por que o panfleto travestido de revista com a maior tiragem do país gastaria duas de suas tão valiosas páginas com o tema?

O espaço destinado à “reportagem” – duas páginas – é o mesmo ocupado pela publicidade de empresas como Ambev, Itaú, Credicard e Santander. Em seu site, na parte destinada aos anunciantes, Veja divulga que a veiculação de um anúncio de uma página custa R$ 216 mil. Caso o anunciante queira escolher a página, este valor sobe para R$ 280 mil. Não há valores para páginas duplas, logo presume-se que seja a soma de duas páginas.

Assim, duas páginas na Veja custariam algo entre R$ 432 mil e R$ 560 mil. Ou seja, não é algo muito barato – cerca de meio milhão de reais – para que alguém possa se dar o luxo de publicar algo sem relevância. O que preocupa tanto a revista? Seria a volta do debate sobre o marxismo, trazido pela crise econômica mundial? Ou o fato de o socialismo, à luz dessa crise e ao contrário de alguns anos atrás, voltar a ser pensado e debatido como algo possível?

A pouco mais de um mês do décimo aniversário da queda do muro de Berlim, a revista precisará de muito mais do que ataques infantis como esse para defender sua tese de que o socialismo morreu e de que o outro muro, o de Wall Street, permanece sólido após a maior crise do capitalismo desde 1929.

De qualquer forma, Veja se desmoraliza cada vez mais, escancarando seu verdadeiro caráter. Mostra, a cada dia, o quanto não é indispensável.

Falsos dossiês

Um dos golpes mais baixos do atual jornalismo brasileiro é a publicação de matérias com “dossiê”, “documento”, “grampo” ou qualque outra “prova” cuja validade não pode ser comprovada. É verdade que existe o “sigilo da fonte”, pois é preciso preservar os nomes de algumas pessoas, quando o assunto é delicado.

Mas o fato é que em nome desse “sigilo”, o repórter não se dá ao trabalho de investigar a informação que recebe. Se na mão dele cai um “dossiê”, ele vai logo publicando sem se perguntar se o material é legal ou ilegal, sem tentar saber que outras provas mais podem ser usadas para comprovar aquilo que o dossiê está “denunciando”, e sem dar ao leitor as outras informações necessárias ao contexto do que se está publicando.

Esse terreno é fértil para que o jornalista seja um franco atirador – isto é – publique o que lhe der na telha, nem que seja uma mentirinha, uma distorçãozinha, para atacar a reputação de seus desafetos, os únicos bois que têm nome nessa história toda. Afinal, criar uma prova sem que para isso seja necessário apresentar elementos que a sustentem é a coisa mais fácil do mundo. E o pior: aqui no Brasil não há instrumento forte o bastante para inibir a publicação dessas mentiras deslavadas, apelidadas de “dossiês”. Está na hora de perguntarmos qual é a liberdade de imprensa que queremos, até aonde vai o direito de sigilo da fonte, qual é o equilíbrio que queremos de nossa imprensa. Do jeito que as matérias estão sendo produzidas, o jornalismo está se tornando palco para crimes e criminosos.

Fica aqui um apelo para que todos possam cobrar instrumentos de controle de qualidade dentro do jornalismo. E que a cobrança por qualidade não seja taxada de “censura”. Quer publicar dossiê? Publica. Mas vai ter que responder criminalmente se o material se comprovar falso.

Em tempo: no Brasil existem leis que punem injúria, difamação, calúnia e entre outros crimes dessa natureza. Mas são leis frágeis, de aplicação demorada, e ainda assim não cobrem as práticas cada vez mais comuns na imprensa.

Vejam a seguir mais uma denúncia do jornalista Luis Nassif.

Mais um dossiê falso
Luis Nassif
A lógica é a mesma que descrevo na série de Veja (clique aqui), especialmente no capítulo “O Lobista de Dantas”.
Primeiro, o lobista passa o dossiê para Diogo Mainardi.

Ele escreve, Veja garante o espaço. Não é uma ou duas vezes, é mais que isso, é sistemático.
Continue a leitura: http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/09/24/mais-um-dossie-falso/