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Dia Mundial de Combate à Homofobia

Hoje é o dia de combate mundial à homofobia. Não é à toa que a data existe – o preconceito contra homossexuais é uma dura realidade que deve ser combatida mundialmente. Vale lembrar que o Brasil faz parte desse mundo – parece que alguns órgãos da imprensa brasileira insistem em ignorar solenemente que tal preconceito existe. Pior: a revista Veja publicou uma matéria querendo mostrar que “não há dramas” na nova geração – leia aqui a matéria “Ser jovem e gay. A vida sem dramas”, edição nº 2164, 14 de maio.

A tese da reportagem é extremamente frágil (para dizer o mínimo). Bastaria uma simples “googlada” pra encontrar, por exemplo, experiências como a de Edith Modesto, mãe de um homossexual e fundadora da Associação Brasileira de Pais e Mães de Homossexuais, entidade que trabalha justamente para auxiliar pais e mães a lidarem com a notícia de seus filhos que se assumem homossexuais. Bastaria algumas leituras dos depoimentos desses pais para se chegar ao óbvio: a homossexualidade ainda é um assunto extremamente complexo e doloroso para famílias, cercado de preconceitos de todos os matizes (religiosos, morais, sociais…) e que carece de muito esclarecimento por parte dos órgãos da imprensa.

A Veja perdeu a oportunidade de esclarecer seus leitores, inventando um mundo que não existe. A matéria afirma, por exemplo, que “Declarar-se gay em uma turma ou no colégio de uma grande cidade brasileira deixou de ser uma condenação ao banimento ou às gozações eternas”. Como o repórter pode provar essa afirmação?! De que mundo o repórter está falando?! Para ficar em um exemplo factual que contraria essa tese, um jornal dos alunos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP recentemente causou repúdio ao realizar uma promoção oferecendo um convite a uma “festa brega” aos estudantes do curso que, em troca, jogarem fezes em um gay. Sim, isso acontece no Brasil, na tal “geração tolerância” que prega a matéria da revista Veja.

Neste outro parágrafo, o grau de imprecisão é gritante “Antes fonte de tormento para alunos homossexuais, alvo de piadas, quando não de surras e linchamentos, o colégio se tornou um desses lugares onde, de modo geral, impera a boa convivência com os gays. Um sinal disso é que a ocorrência de casos de bullying por esse motivo tem caído gradativamente.” Reparem que a matéria não diz em que pesquisa ou artigo científico levantou essa estatística, ou quais escolas pesquisou.

A pior parte da matéria, na minha humilde opinião, é esta aqui: “Os jovens que aparecem nas páginas desta reportagem, que em nenhum instante cogitaram esconder o nome ou o rosto, são o retrato de uma geração para a qual não faz mais sentido enfurnar-se em boates GLS (sigla para gays, lésbicas e simpatizantes) – muito menos juntar-se a organizações de defesa de uma causa que, na realidade, não veem mais como sua.” Para quem nunca escreveu matéria na vida, essa parte parece normal, sem erros. Mas sutilmente houve um direcionamento por parte do repórter: ele condensou a “fala” de todos os entrevistados na tese que ele queria provar. Isso é um indício de que o repórter já saiu a campo (para as ruas) para buscar uma amostra de jovens que pudessem corroborar com uma tese: a de que as lutas por direitos LGBT é desnecessária. Os jovens que ele encontrou que são militantes, não apareceram na reportagem. Isso se chama omissão.

Quer dizer que não existem mais jovens brasileiros assumidos e ativistas?! Quer dizer que esses jovens não vão crescer, compartilhar plano de saúde, formar família, ter direito à pensão em caso de morte do companheiro(a), e, de repente, descobrirem que precisam se engajar na causa?

Ok. Vou ficar por aqui. Passo a palavra para a jornalista e poeta Camila Marins, que publicou um belo artigo sobre este tema no no blog: http://camilamarins.blogspot.com/ e que eu reproduzo a seguir.

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Todo REPÚDIO à revista Veja. Viva a luta do movimento LGTTB!
Camila Marins – jornalista e poeta

10/05/2010

A revista Veja publicou nessa semana a seguinte matéria: “Ser jovem e gay. A vida sem dramas.” A reportagem – por meio de depoimentos de jovens de classe média e classe média alta – aponta que os jovens gays têm assumido a homossexualidade sem qualquer razão para temer ou esconder. A revista ainda mostra que ser militante da causa é quase ultrapassado e que a luta é desnecessária. O que a matéria não registra ficou na marginalidade da informação: homofobia existe.

O estranho é que não há um negro ou uma negra na matéria. Ou então jovens pobres. E as travestis? Por que elas não conseguem emprego? Imaginem só uma mulher afirmar que é negra e lésbica. Demais para os leitores de Veja? De acordo com dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), o Brasil é o campeão mundial de crimes contra lésbicas, gays, travestis, transexuais e bissexuais (LGTTB’s): um assassinato a cada dois dias, aproximadamente 200 crimes por ano, seguido do México com 35 homicídios e os Estados Unidos com 25.

Não precisamos apenas de dados para constatar a homofobia. Quantas piadas, xingamentos e brincadeirinhas estão carregadas de preconceito? Basta ligar a televisão que podemos assistir um general das Forças Armadas (mesmo exemplo dado pela revista) afirmando sua posição contrária à presença de gays na instituição. Pior ainda, que País é este que respalda Marcelo Dourado como campeão do Big Brother Brasil e queridinho da população brasileira? Isso porque Dourado, além de comentários e atitudes machistas e homofóbicas, afirmou que heterossexuais não pegam Aids. Fato que fez com que a Globo utilizasse o mesmo espaço para esclarecimentos do Ministério da Saúde.

Se tudo está mais tranquilo, livre de preconceito e agressões, por que o Brasil não aprova a Lei 122/06 que criminaliza a homofobia? Esse preconceito velado é uma das piores tendências e a revista Veja, inegavelmente nojenta, tenta convencer a população que militar no movimento LGTTB é ultrapassado, ‘over’. Ninguém esconde orientação sexual embaixo de bandeiras. Ao contrário, militamos por uma sociedade justa e livre de preconceitos. Desqualificar a luta do movimento LGTTB é, no mínimo, ignorância. Foi por meio da luta do movimento que a homossexualidade deixou de ser considerada doença e perversão e, até hoje, é referência histórica na luta contra a homofobia.

Se não há preconceito, por que pessoas do mesmo sexo não andam sequer de mãos dadas em público? Por que travestis sofrem violência física e moral todos os dias? Por que as travestis não conseguem emprego ou o simples direito de mudar de nome? Por que as mulheres lésbicas sofrem com a falta de um atendimento específico nos hospitais e postos de saúde – elas mal são tocadas, principalmente as negras, além de sofrerem com péssima orientação médica? Por que homens gays são massacrados em instituições, seja exército ou universidade? Por que casais gays não podem se casar ou adotar filhos? Eu mesma, só conheci uma travesti com um emprego que não fosse profissional do sexo. Ela era operadora de telemarketing… Mais uma vez, escondida.

A luta contra a homofobia não deve parar e cada um de nós deve lutar por um mundo melhor livre de opressões. Todo REPÚDIO à revista Veja. Viva a luta do movimento LGTTB!

Deu no Observatório da Imprensa: Estadão errou e não se retratou

Para quem não conhece, o Observatório da Imprensa é um dos poucos portais brasileiros que discute questões jornalísticas com profundidade e diversidade. Naquele espaço há quem defenda a liberdade absoluta de imprensa, e há quem defenda uma liberdade com a devida responsabilidade.

Foi lá que o renomado jurista e professor emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, Dalmo Dallari, publicou um artigo reclamando da falta de retratação do jornal “O Estado de S.Paulo” (também conhecido como “Estadão”) em relação a uma informação errada que circulou em uma matéria sobre o caso do Batistti no dia 17 de abril. Seguno Dalmo Dallari, até hoje (5 de maio) nenhuma errata foi publicada, a despeito da carta que ele enviou à redação no dia 19 de abril, pedido de correção que foi reiterado no dia 22.

Como se trata de uma questão jurídica um pouco complexa, vou reproduzir na íntegra o artigo de Dalmo Dallari. Percebam que é uma falha que pode ser corrigida sem nenhum problema por uma errata. Fica a pergunta: quando é que os leitores do Estadão vão ter acesso à informação correta? Ao final do texto, Dallari ainda dá uma elegante alfinetada: “A recusa de publicação de meu pedido de correção da informação errada é uma forma de censura, surpreendente num órgão de imprensa que insiste em se colocar como vítima da censura.”

Clique aqui para acessar o texto do Dallari direto na fonte ou leia a seguir.

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Liberdade com responsabilidade
Por Dalmo de Abreu Dallari em 5/5/2010

A liberdade de imprensa é necessidade essencial da sociedade moderna, quando se pensa em sociedade democrática, e por esse motivo essa liberdade é consagrada como um direito fundamental. E aqui é oportuno acentuar que esse direito, antes de ser dos proprietários ou dirigentes dos órgãos de divulgação, é um direito da cidadania, que necessita da imprensa livre para obter informações corretas e precisas sobre fatos e questões que apresentem algum interesse para a convivência humana, assim como para expender opiniões e tomar conhecimento do pensamento de outras pessoas e de grupos e instituições sociais sobre dados e perspectivas que tenham essa relevância.

Por esses motivos, a liberdade de imprensa implica uma responsabilidade, compreende deveres, entre os quais tem extrema importância o dever de verdade – de não transmitir informações falsas ou maliciosamente distorcidas. E, quando divulgada uma informação que depois de publicada se verifica que não é verdadeira, é dever do órgão de imprensa, em respeito aos direitos da cidadania, reconhecer o erro e publicar uma correção, com a mesma ênfase dada à publicação da informação errada.

Sentença definitiva

Um fato bem recente, envolvendo um dos principais jornais brasileiros, torna oportunas e necessárias essas observações. No dia 17 de abril deste ano, o jornal O Estado de S.Paulo publicou matéria sobre o caso que envolve o italiano Cesare Batistti, que, com 20 anos da idade, foi ativista político na Itália, nos chamados “anos de chumbo”.

Refugiado na França, no ano de 1983 foi julgado à revelia por um tribunal italiano que, com base exclusivamente no depoimento de um “arrependido”, um antigo companheiro de Batistti que se valeu da “delação premiada” para entregar companheiros em troca de benefícios pessoais, condenou Batistti à pena de prisão perpétua. Refugiado no Brasil, ele está preso em Brasília, à espera da decisão final, que compete exclusivamente ao presidente da República, sobre um pedido de extradição formulado pelo governo italiano.

Deixando de lado vários outros aspectos juridicamente relevantes, o que aqui se quer colocar em evidência é o fato de que o Estado de S.Paulo, que já publicou várias matérias sobre o caso Batistti, voltou a colocar o assunto em destaque na edição de 17 de abril. Comentando a situação atual do italiano no Brasil, informou que o presidente Lula tem duas opções, ao decidir sobre o pedido de extradição. Uma delas será decidir negativamente ao pedido do governo italiano, hipótese em que Cesare Batistti poderá ficar vivendo no Brasil. A outra possibilidade, segundo o jornal, “é entregá-lo para a Itália, onde cumprirá cerca de 28 anos de prisão”.

Aí está uma informação errada, desprovida de qualquer fundamento, com a agravante de que esse erro oculta um dado jurídico de extrema relevância. Com efeito, Batistti foi condenado à pena de prisão perpétua, pena que, assim como a pena de morte, é expressamente vedada pela Constituição brasileira, por disposição do inciso XLVII, letra “b”, do artigo 5º. Em termos jurídicos, Cesare Batistti não pode ser extraditado para a Itália para cumprir uma pena que é proibida pela Constituição brasileira. E a decisão do tribunal italiano há muito transitou em julgado, tornou-se definitiva, não podendo ser modificada por qualquer órgão do governo italiano, seja ele do Executivo ou do próprio Judiciário.

Papel de vítima

Em vista desse erro patente, que induzirá muitos leitores a avaliar de maneira incorreta uma decisão do presidente da República, enviei ao jornal, para a Central de Atendimento ao Leitor, o seguinte esclarecimento, com pedido de publicação:

“A matéria sobre o caso Batistti, publicada na edição do dia 17, à página A10, contém um erro grave. Com efeito, ali foi dada a informação de que uma das decisões possíveis do presidente Lula é `entregá-lo para a Itália, onde cumprirá cerca de 28 anos de prisão´. Essa informação está errada, pois Batistti foi condenado por um tribunal italiano à pena de prisão perpétua e essa decisão já transitou em julgado, é definitiva. Pela Constituição italiana, nem o Poder Executivo nem o Judiciário podem alterar uma decisão judicial transitada em julgado. Assim, pois, é importante que seja publicada essa retificação, pois se trata de matéria de interesse público, sendo necessário que os leitores do Estado estejam corretamente informados. Solicito, portanto, a publicação dessa retificação, que não pode ficar sujeita a qualquer espécie de censura.”

Esse pedido de publicação do esclarecimento foi seguido da indicação de meu nome, com RG, endereço e número de fax. Enviado o pedido no dia 19 de abril, foi reiterado no dia 22, sem que até agora tenha sido publicado qualquer esclarecimento corrigindo a informação errada.

É curioso que o mesmo jornal vem publicando diariamente uma nota dizendo-se censurado e impedido de publicar certas informações constantes de um inquérito da Polícia Federal, quando, na realidade, essas informações já foram publicadas por vários outros órgãos da imprensa, não havendo agora qualquer interdição para que O Estado de S.Paulo as publique.

A recusa de publicação de meu pedido de correção da informação errada é uma forma de censura, surpreendente num órgão de imprensa que insiste em se colocar como vítima da censura.

Alexandre Garcia e a ilegalidade em Cuba

Difícil enquadrar o comentário do comentarista Alexandre Garcia, hoje, no Bom Dia (sic) Brasil.

Segundo a notória figura, falando sobre Lan Houses – e demonstrando total ignorância, como lhe é típico -, a internet, seu uso, incentiva a prática de crimes, como a pedofilia, roubo de senhas e etc.

Exato, usar um computador é o mesmo que incentivar o crime. Não é de surpreender que, após uma reportagem sobre a tentativa de se facilitar o processo de legalização e disseminação das Lan Houses, a Globo use seu cão de guarda para atacar a idéia. Ataca porque a popularização do acesso e a transformação destas casas em centros de educação, ensino e disseminação de informações – mais do que apenas um ponto para conexão e jogos -, como propõe o Deputado Paulo Teixeira (PT-SP), iria propiciar à população o acesso à informações que a Rede Globo não propicia, na verdade, esconde.

A Globo não quer que o pobre tenha acesso livre, irrestrito e tenha acesso à informação. Isto iria implodir sua credibilidade (sic). Hoje, a franca maioria das Lah Houses são ilegais, principalmente graças às exigências risíveis de estados e prefeituras. Claro que, todos sabemos, muitas das exigências impostas por uma elite política temerosa do poder que a rede dá aos seus usuários que sabem usá-la.

Mas a coisa ainda piora. O mesmo piadista não poderia terminar de falar sem uma declaração ainda mais infeliz, segundo Alexandre Garcia, só há vantagem em Lan House ilegal em Cuba!

Sim, segundo o infeliz, só nesses lugares os Cubanos podem ter liberdade e acesso livre à rede!

Como uma figura destas pode falar o que bem entende na TV? Defender a ilegalidade no país dos outros pode? Dar declarações estapafúrdias e criminosas pode?

Alexandre Garcia é um criminoso.

Veja coloca frase na boca de especialista

Atualização do dia 5 de maio: a Associação Brasileira de Antropologia também publicou carta pedindo para a revista Veja se retratar – leia aqui.

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro é a nova vítima da “reportagem” cometida pela revista Veja. Os autores da matéria “A farra da antropologia oportunista” (Veja ano 43 nº 18, de 05/05/2010), colocaram na boca de Viveiros a seguinte afirmação: “Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original” .

Viveiros de Castro é um dos cientistas mais respeitados da Antropologia. Ele enviou uma carta para os editores da Veja reclamando que a frase jamais foi dita por ele – mensagem que foi reproduzida no site do Nassif.

A revista Veja, por sua vez, não admitiu a falha – limitou-se a responder, de forma confusa, que resumiu o pensamento do autor com base em um texto que Viveiros teria encaminhado para a Veja, quando este foi procurado pelos repórteres. Leia aqui a resposta da Veja, também publicada no site do Nassif.

O autor, no entanto, reiterou que a tal frase nunca foi dita por ele. Também esclareceu que foi sim, procurado pela Revista, mas que ele se negou a dar entrevista, pedindo aos repórteres que procurassem seus textos já publicados, que, por serem públicos, podem ser citados. A réplica do antropólogo foi publicada no site do Nassif.

Até onde vai o absolutismo da imprensa? Pode um veículo, simplesmente, assassinar reputações, enterrar fatos e distorcer verdades, sem sofrer nenhuma punição? A sociedade precisa debater em que pé de liberdade quer sua imprensa: baseada no respeito, seriedade, credibilidade ou na base do vale-tudo, da mentira, da invenção? Acho que o debate precisa continuar, sem medo de sermos rotulados de “censores”. Calar esse debate é um incentivo à ignorância e à barbárie!

Requentando o factóide

Ficamos até com vergonha de retomar o assunto. Mas, parece que o eixo Folha-Veja-Globo insiste em requentar um factóide que já foi desmontado e que nós já tratamos aqui. Perece que o eixo não compartilha de nossa vergonha. Vergonha de ver jornalistas fazendo esse papel em nome das vontades de um chefe que já perdeu o rumo faz tempo. Chefe que parece apostar – como o chefe de propaganda de um dos regimes de um Eixo passado – que uma mentira contada várias vezes passaria a ser verdade. Engana-se: não neste tempo. O factóide requentado e azedo foi rapidamente desmantelado, mais um vez.

Fiquem com a excelente análise do Azenha sobre o assunto.

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por Luiz Carlos Azenha

A partidarização da mídia brasileira vai além do desapego à verdade factual. Temos jornalistas que, em nome de contemplar “os dois lados”, simplesmente se deixam usar para fazer propaganda política.

O caso envolvendo Lina Vieira é apenas a demonstração mais recente disso. A ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, usou uma entrevista à Folha de S. Paulo para propagar a versão de um encontro com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. O ônus da prova cabia a ela, Lina. Ao depor no Congresso, Lina Vieira não forneceu provas factuais ou testemunhais sobre o que disse na entrevista.

Ou seja, a mídia transformou um factóide em um fato. Fez isso em nome dos partidos de oposição, numa clara estratégia para avançar os interesses partidários.

O factóide ganhou novo fôlego com o surgimento repentino da agenda de Lina Vieira. O encontro, segundo anotação na agenda, teria sido no dia 9 de outubro de 2008 (essa é, pelo menos, a versão da revista Veja). Não é a data anunciada anteriormente por Lina Vieira a senadores da oposição.

Quem é que fez a acusação sem apresentar provas, que se “esqueceu” da agenda e que aparentemente mudou de versão? Lina Vieira. A mídia, no entanto, continua assumindo como verdadeiras as declarações dela. Continua fazendo claramente o jogo dos partidos de oposição.

O fato é que não há novidade no encontro entre Dilma e Lina no dia 9 de outubro. O encontro, um de muitos entre as duas, havia sido admitido anteriormente no depoimento oficial de Lina ao Congresso.

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Folha insiste na gripe suína

O jornalista Luiz Antônio Magalhães não deixou passar em branco essa tentativa da Folha de, mais uma vez, querer encontrar gripe suína onde não há. Para isso, a Folha utilizou um método risível (pra não dizer outra coisa). Acham que estou exagerando? Pois leiam a seguir a análise certeira do jornalista e editor executivo do Observatório da Imprensa, Luiz Antônio Magalhães.

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Folha não se emenda na gripe suína
A matéria reproduzida abaixo saiu escondidinha, no segundo caderno do Cotidiano da Folha de S. Paulo, e não mereceu chamada de capa. É inacreditável que o jornal tenha feito o que fez neste sábado. Resumindo a história, depois de afirmar, no dia 19 de julho, na primeira página, que 35 milhões de brasileiros seriam contaminados pela gripe suína, o jornal mandou a campo o seu próprio instituto de pesquisas, o Datafolha, para realizar uma das coisas mais ridículas da história do jornalismo brasileiro.

Sim, porque a enquete mesmo é algo surreal: o Datafolha foi para as ruas perguntar às pessoas se, nos últimos meses, elas tiveram “sintomas de gripe”. Com o resultado em mãos, a Folha escreveu outra pérola que não resiste a dois minutos de análise. Segundo o jornal, “27% dos brasileiros tiveram sintomas de gripe desde junho”, o que equivale a 51,3 milhões de pessoas. Bem, aí o jornal faz uma continha malandra, diz que 40% desses casos devem ser da variante suína e chega aos 20 milhões de infectados. No meio do texto, a ressalva de que o “auto-diagnóstico” não é propriamente a melhor maneira de se aferir as coisas, mas, enfim, está lá o número grandão – 20 milhões, uma enormidade, mas ainda assim, 15 milhões abaixo do “previsto” pelo jornal em julho.

É evidente que a pesquisa não vale coisa alguma e que o número está superdimensionado. Dos tais 27% dos entrevistados (e não de toda a população brasileira, conforme a própria pesquisa mostra, porque não foram pesquisados os menores de 16 anos) que disseram ter tido sintoma de gripe, é bastante provável que um percentual expressivo tenha respondido afirmativamente mesmo no caso de ter passado apenas por um mero resfriado, muito mais comum do que a gripe, conforme apontam os especialistas. Ademais, a estupidez cometida pelo jornal não se sustenta pela taxa de letalidade da doença. Se de fato fossem 20 milhões de brasileiros com a suína, apenas na faixa acima de 16 anos, admitindo a taxa de 0,4%, já deveriam ter morrido 80 mil pessoas em consequência da doença. Só que não morreram nem duas mil. Realmente, espanta que um jornalista inteligente, estudado e bem formado como Hélio Schwartsman se preste ao triste papel de assinar uma sandice como a que se pode ler a seguir.

27% dos brasileiros tiveram sintomas de gripe desde junho

Pesquisa Datafolha mostra que, nos últimos três meses e meio, o equivalente a 51,3 milhões de pessoas experimentou quadro gripal

Até julho, o vírus da gripe suína correspondia a 40% dos casos leves, o que sugere que 20,5 milhões de pessoas podem ter contraído a doença

HÉLIO SCHWARTSMAN
DA EQUIPE DE ARTICULISTAS

Pesquisa Datafolha mostra que 27% dos brasileiros com mais de 16 anos relataram ter tido “sintomas de gripe” entre junho e a data da entrevista (de 9 a 11/9). Extrapolando essa porcentagem para a população geral, isso significa que algo em torno de 51,3 milhões de pessoas experimentaram um quadro gripal nos últimos três meses e meio.

Mais ou menos a metade delas (14% dos entrevistados, ou cerca de 26,6 milhões) declararam ter procurado um médico -o que explica, com folga, a superlotação dos hospitais.

Evidentemente, nem todo “sintoma de gripe” é de fato provocado por vírus, nem todo vírus respiratório é o da gripe e nem toda gripe tem como agente causador o H1N1 pandêmico.

Dados do Ministério da Saúde sobre os casos menos graves indicam que o novo H1N1 respondia por 40% das amostras processadas até o fim de julho. A partir daí, a pasta concluiu que o esforço de fazer o diagnóstico laboratorial de quadros leves não compensava e passou a testar só os mais graves. Nessa situação, no auge da epidemia (primeira semana de agosto), o H1N1 foi identificado como causador de 58% das síndromes respiratórias agudas graves notificadas e testadas.

Se aplicarmos o “deflator” de 40% aos 51,3 milhões de quadros gripais, chegamos a 20,5 milhões, que representam, na opinião de infectologistas, uma estimativa bruta defensável dos casos de gripe suína ocorridos até o momento.

“Não dá para publicar um artigo científico no “New England Journal of Medicine”, mas, com as devidas ressalvas, [esse método] serve para dar uma ideia do tamanho da epidemia aqui”, disse Esper Kallas, da USP e do Hospital Sírio-Libanês.

O principal problema, aponta, é que não dá para equiparar o autodiagnóstico a um diagnóstico médico. “Mas não há como avançar mais numa entrevista simples [como a do Datafolha].”
O médico afirmou também que não se surpreenderia nem se os 27% tivessem tido a gripe suína. Ele disse que já há estudos apontando para uma circulação de 30% do H1N1 no Chile.
Celso Granato, do Laboratório Fleury, que ajudou a Folha a preparar o questionário do Datafolha, considerou os 27% um índice elevado: “Não esperava tanto!”. Relativizou o problema do autodiagnóstico lembrando que o ministério acaba de fazer uma longa campanha na TV para explicar o que é gripe.
Também disse que o índice de 14% de procura por um médico sugere consistência no comportamento dos entrevistados. “Ninguém vai ao médico por um resfriadinho”, afirmou.

Nordeste
O diretor do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, David Uip, surpreendeu-se com a porcentagem de quadros gripais apurada no Nordeste, que superou a do Sudeste. “Só isso já merece uma investigação.” Uma possibilidade aventada pelo médico é que a ampla repercussão midiática da epidemia tenha contribuído para inflar os números nordestinos.

A literatura médica é quase unânime em apontar incidência decrescente de gripe conforme se avança para o norte. Também não se verificou, no Nordeste, pressão tão forte sobre o sistema de saúde quanto a observada no Sul e no Sudeste. Kallas, porém, disse que, com a circulação cada vez maior de pessoas entre cidades e regiões, não esperaria taxas tão menores no Nordeste. Vale ainda observar que os 51,3 milhões constituem uma extrapolação conservadora, pois a metodologia do Datafolha não considera a população até os 16 anos, justamente a mais suscetível a contrair vírus respiratórios em geral. Esse recorte etário representa cerca de 25% da população.

Leia no Blog Entrelinhas:
http://blogentrelinhas.blogspot.com/2009/10/folha-nao-se-emenda-na-gripe-suina.html

A Gripe da Folha

Como diz a Jornalista Conceição Lemes: “Fazer política sobre saúde pode matar”. No entanto, foi isso que o jornal Folha de São Paulo fez na sua edição do dia 19 de Julho de 2009. A chamada de capa para a reportagem neste episódio foi: “Gripe suína deve atingir ao menos 35 milhões no país em 2 meses”. Considerando que a maioria das pessoas só têm acesso às capas de jornais que ficam expostas nas bancas – uma vez que a tiragem dos jornais impressos cai a cada dia – esta manchete tem potencial alarmista.

gripefolha

Mesmo alertado por uma das fontes citadas na matéria, o “capista” responsável pela manchete decidiu ignorar que o modelo matemático aplicado não serviria para o vírus H1N1, já que foi feito com base em dados de pandemias anteriores, e colocou na chamada “deve” no lugar de “pode” (ainda que esta palavra também não corresponda totalmente aos fatos).

Clique no link e tenha acesso à entrevista concedida pelo epidemiologista Dr. Eduardo Carmo Hage (fonte citada pela reportagem) à Jornalista Conceição Lemes no Vi o Mundo: http://www.viomundo.com.br/denuncias/reportagem-da-folha-sobre-gripe-suina-e-totalmente-furada-uma-irresponsabilidade/

Continuação (inserido no dia 21/09/09)

Folha e gripe suína: é o segundo crime contra a saúde pública em 19 meses

por Conceição Lemes, no Vi o Mundo

Em 22 de julho, o Viomundo denunciou: Reportagem da Folha sobre gripe suína é totalmente furada; uma irresponsabilidade.

A matéria da Folha de S. Paulo foi publicada no dia 19 de julho, domingo, com esta manchete na capa:  Gripe suína deve atingir ao menos 35 milhões no país em 2 meses. Internamente, no caderno Cotidiano, o título  Gripe pode afetar até 67 milhões de brasileiros em oito semanas e o primeiro parágrafo da reportagem, mais atemorizadores, previam uma catástrofe muito pior:

A pandemia de gripe provocada pela nova variante do vírus A H1N1 poderá atingir entre 35 milhões e 67 milhões de brasileiros ao longo das próximas cinco a oito semanas. De 3 milhões a 16 milhões desenvolverão algum tipo de complicação a exigir tratamento médico e entre 205 mil e 4,4 milhões precisarão ser hospitalizados.

Na ocasião, o médico epidemiologista Eduardo Hage Carmo, diretor de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), do Ministério da Saúde, alertou: “Os parâmetros utilizados pela Folha de S. Paulo são totalmente furados. Não têm base epidemiológica, estatística, científica. Foi um chute a quilômetros de distância do alvo. Uma irresponsabilidade. Ao final desta fase da pandemia os números não serão os da reportagem da Folha. Serão bem menores”.

Hoje, 19 de setembro, faz dois meses (ou nove semanas) que a reportagem da Folha foi publicada. A realidade provou que o doutor Eduardo Hage, do Ministério da Saúde, estava absolutamente certo e a Folha completamente errada.

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