Arquivo da categoria: Assassinato de reputação

Veja coloca frase na boca de especialista

Atualização do dia 5 de maio: a Associação Brasileira de Antropologia também publicou carta pedindo para a revista Veja se retratar – leia aqui.

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro é a nova vítima da “reportagem” cometida pela revista Veja. Os autores da matéria “A farra da antropologia oportunista” (Veja ano 43 nº 18, de 05/05/2010), colocaram na boca de Viveiros a seguinte afirmação: “Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original” .

Viveiros de Castro é um dos cientistas mais respeitados da Antropologia. Ele enviou uma carta para os editores da Veja reclamando que a frase jamais foi dita por ele – mensagem que foi reproduzida no site do Nassif.

A revista Veja, por sua vez, não admitiu a falha – limitou-se a responder, de forma confusa, que resumiu o pensamento do autor com base em um texto que Viveiros teria encaminhado para a Veja, quando este foi procurado pelos repórteres. Leia aqui a resposta da Veja, também publicada no site do Nassif.

O autor, no entanto, reiterou que a tal frase nunca foi dita por ele. Também esclareceu que foi sim, procurado pela Revista, mas que ele se negou a dar entrevista, pedindo aos repórteres que procurassem seus textos já publicados, que, por serem públicos, podem ser citados. A réplica do antropólogo foi publicada no site do Nassif.

Até onde vai o absolutismo da imprensa? Pode um veículo, simplesmente, assassinar reputações, enterrar fatos e distorcer verdades, sem sofrer nenhuma punição? A sociedade precisa debater em que pé de liberdade quer sua imprensa: baseada no respeito, seriedade, credibilidade ou na base do vale-tudo, da mentira, da invenção? Acho que o debate precisa continuar, sem medo de sermos rotulados de “censores”. Calar esse debate é um incentivo à ignorância e à barbárie!

Lobista, o rótulo que cala a divergência

A revista semanal “Isto é” cometeu uma “reportagem” na edição 2076 (26 de agosto de 2009), no mínimo inconsistente. O título da matéria em questão é “O Lobista de Chaves“. A frase que acompanha o título é: “Jornalista brasileiro trabalha no Senado, mas faz hora extra para defender interesses da Venezuela”

Até aqui o leitor já se prepara para ver, no mínimo, a notícia de um “lobista”, funcionário do Senado, que estaria recebendo hora extra para trabalhar para o presidente da Venezuela Hugo Chaves. O fato do funcionário estar fazendo hora extra no Senado, usando equipamento público pra defender interesses da Venezuela poderia até caracterizar o crime de prevaricação. A matéria não chegou a fazer explicitamente essa acusação, mas essa era uma leitura possível.

No entanto, ao ler a matéria na íntegra, não há uma só prova de que o tal funcionário estivesse realizando trabalhos para Hugo Chaves dentro do nosso Senado. Pelo contrário: há apenas a fala do próprio funcionário, explicando que executa suas atividades de forma voluntária e sem vínculo empregatício. Há também o depoimento do deputado do PSDB Álvaro Dias pedindo para averiguar “se as atividades paralelas dele com o governo Chávez são compatíveis com os horários de trabalho no Senado”. Ou seja, de concreto, nada pesava contra o funcionário.

Quer dizer, a reportagem chamou um funcionário do senado de “lobista” e ainda colocou em dúvida a idoneidade de seu trabalho no Senado sem apresentar NENHUMA prova que sustente seu título e sua chamada. Está aí a inconsistência. Mas a matéria não peca só pela inconsistência, que já é, por sinal, motivo suficiente para não ter sido publicada.

Lobista, esse rótulo
De acordo com o dicionário Houaiss, lobista é o indivíduo que faz lobby, que por sua vez é a atividade de pressão de um grupo organizado (de interesse, de propaganda etc.) sobre políticos e poderes públicos, que visa exercer sobre estes qualquer influência ao seu alcance, mas sem buscar o controle formal do governo.

Apesar da definição amena do dicionário, sabemos que no Brasil essa palavra tem uma conotação extremamente negativa. Aqui, o lobista é a pessoa que recebe dinheiro ou favorecimento para intermediar interesses escusos de algum grupo – ou seja, praticamente um corrupto. Quando os interesses defendidos contam com certa simpatia do senso comum (luta contra o câncer, por exemplo), emprega-se a expressão “lobby do bem”, justamente para reforçar essa diferença.

Por tudo isso, fica claro que a intenção da reportagem é única e simplesmente, rotular o funcionário do Senado de lobista pelo fato de ele ter uma militância politica fora de seu ambiente de trabalho. E se uma revista de grande circulação constrói perante o público a idéia de que funcionários públicos não podem ter opinião política, aí nós temos não só um problema de inconsistência jornalística, mas um golpe contra a cidadania e o direito de livre manifestação garantido pela Constituição de 88. É uma tentativa de calar a divergência política, é a imposição de uma visão de mundo.

E como fica o funcionário!?
O funcionário do Senado, Carlos Alberto Almeida, conhecido como Beto Almeida, publicou uma carta endereçada a “Isto é” exigindo um direito de resposta. Clique aqui para ler o documento.

E qual o interesse da “Isto é” em prejudicar o funcionário do senado?
São muitos os interesses. Já abordaram o tema Maria Frô; Altamiro Borges e o Rovai.

A ficha falsa da Dilma

No dia 5 de abril de 2009,  a Folha de São Paulo publicou em sua capa uma suposta ficha da Ministra da Casa Civil Dilma Rousseff no DOPS. O suposta é por nossa conta – o jornal publicou o documento como verdadeiro, sem se preocupar com as conseqüências caso a ficha se comprovasse falsa. A imagem da ficha foi publicada junto à manchete: “Grupo de Dilma Planejou Sequestro de Delfim Neto”. Resultado: a ministra ficou com a imagem de criminosa.

Detalhe da capa da Folha de São Paulo

Dilma chegou a enviar ao jornal dois laudos contratados por ela, junto a peritos da Universidade de Brasília (UnB) e Unicamp. O jornal, cinicamente, tergiversou: respondeu que não poderia garantir que a ficha era falsa, por não ter o original para comparar – ou seja, uma tremenda falácia. Afinal, se a ficha era falsa é porque nunca existiu, e se nunca existiu como obter um documento original para comprovação, como sugere cinicamente a Folha?

Laudo da Unicamp, escaneado:
http://www.slideshare.net/LuisNassif/laudo-unicamp-escaneado-09-06-15

Laudo da UnB:
http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/files/2009/07/laudo-unb.pdf