No lugar da voz, um bilhete sem rosto

No dia 2 de setembro de 2009 o Jornal Nacional noticiou a manifestação que ocorreu em Heliópolis (bairro da periferia de São Paulo, capital) pela morte da adolescente Ana Cristina de Macedo, atingida por uma bala perdida numa perseguição policial. A matéria é um exemplo de como a violência é tratada nos telejornais: com violência. Veja aqui a reportagem na íntegra.

O fato é que a morte de uma adolescente mobilizou muitos moradores em Heliópolis, que se indignaram, tomaram coragem e foram para as ruas, enfrentando policiais e quem mais estivesse pela frente. As perguntas que ficam são: quem são essas pessoas que promoveram esse protesto? Como elas se organizaram? O que realmente fez com que elas saíssem de suas casas para enfrentar a polícia e participar de um conflito violento?

A matéria veiculada pelo Jornal Nacional não procurou responder nenhuma dessas perguntas. Pelo contrário: fez de conta que essas pessoas não existiam. E não por falta de tempo: a matéria deu voz às pessoas que passavam por acaso na região, e que sofreram com o conflito, falou com a Polícia e conseguiu até a declaração do governador sobre o tema. Mas nenhum único depoimento sobre aqueles que saíram de casa para fazer um protesto nas ruas de Heliópolis foi ouvido.

Mas o pior é que, no lugar de colocar a voz de alguém que participou da manifestação, a reportagem mostrou um bilhete. Atribuiu a esse papel, com uma mensagem escrita à mão, e que poderia ter sido escrita por qualquer um, o motivo do conflito. E o que estava escrito no papel? Que os moradores que aderissem à manifestação receberiam uma cesta básica!

Quer dizer, uma violência! Além de não dar voz aos manifestantes, a matéria insinuou que eles teriam enfrentado a polícia em troca de uma cesta básica! Como se a vida de uma adolescente não fosse um motivo suficiente para uma mobilização. Como se um bilhete assinado pelo apelido “tiras” tivesse mais valor do que a voz de uma pessoa de carne e osso que estava em um dos lados da trincheira.

A história do bilhete ficou tão mal contada que depois foi desmentida pela própria Rede Globo, só que em nível local, numa matéria exibida somente para os telespectadores de São Paulo.

Desabafo: tenho dúvidas quanto a real intenção de se mostrar um bilhete como causa de uma manifestação. Parece-me que ou o repórter foi muito ingênuo para acreditar que um bilhete pudesse ter tamanha importância diante dos fatos ou então é uma indiferença construída dentro do jornalismo, de forma proposital, com a intenção de gerar insensibilidade com as dores dos outros. A impressão que tenho é a de que há um esforço intencional para se transformar uma manifestação, que nasce de causa definidas, de dores e de tragédias coletivas, em um mero ato de vandalismo, vazio de sentido e de significado. Como se o tal vandalismo pousasse na rua como um disco voador vindo do espaço.

Em tempo: O Luiz Carlos Azenha publicou um excelente artigo no blog Vi o Mundo. O assunto foi ironizado no blog Quanto Tempo Dura?, clique aqui para ver a sátira.

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