Lobista, o rótulo que cala a divergência

A revista semanal “Isto é” cometeu uma “reportagem” na edição 2076 (26 de agosto de 2009), no mínimo inconsistente. O título da matéria em questão é “O Lobista de Chaves“. A frase que acompanha o título é: “Jornalista brasileiro trabalha no Senado, mas faz hora extra para defender interesses da Venezuela”

Até aqui o leitor já se prepara para ver, no mínimo, a notícia de um “lobista”, funcionário do Senado, que estaria recebendo hora extra para trabalhar para o presidente da Venezuela Hugo Chaves. O fato do funcionário estar fazendo hora extra no Senado, usando equipamento público pra defender interesses da Venezuela poderia até caracterizar o crime de prevaricação. A matéria não chegou a fazer explicitamente essa acusação, mas essa era uma leitura possível.

No entanto, ao ler a matéria na íntegra, não há uma só prova de que o tal funcionário estivesse realizando trabalhos para Hugo Chaves dentro do nosso Senado. Pelo contrário: há apenas a fala do próprio funcionário, explicando que executa suas atividades de forma voluntária e sem vínculo empregatício. Há também o depoimento do deputado do PSDB Álvaro Dias pedindo para averiguar “se as atividades paralelas dele com o governo Chávez são compatíveis com os horários de trabalho no Senado”. Ou seja, de concreto, nada pesava contra o funcionário.

Quer dizer, a reportagem chamou um funcionário do senado de “lobista” e ainda colocou em dúvida a idoneidade de seu trabalho no Senado sem apresentar NENHUMA prova que sustente seu título e sua chamada. Está aí a inconsistência. Mas a matéria não peca só pela inconsistência, que já é, por sinal, motivo suficiente para não ter sido publicada.

Lobista, esse rótulo
De acordo com o dicionário Houaiss, lobista é o indivíduo que faz lobby, que por sua vez é a atividade de pressão de um grupo organizado (de interesse, de propaganda etc.) sobre políticos e poderes públicos, que visa exercer sobre estes qualquer influência ao seu alcance, mas sem buscar o controle formal do governo.

Apesar da definição amena do dicionário, sabemos que no Brasil essa palavra tem uma conotação extremamente negativa. Aqui, o lobista é a pessoa que recebe dinheiro ou favorecimento para intermediar interesses escusos de algum grupo – ou seja, praticamente um corrupto. Quando os interesses defendidos contam com certa simpatia do senso comum (luta contra o câncer, por exemplo), emprega-se a expressão “lobby do bem”, justamente para reforçar essa diferença.

Por tudo isso, fica claro que a intenção da reportagem é única e simplesmente, rotular o funcionário do Senado de lobista pelo fato de ele ter uma militância politica fora de seu ambiente de trabalho. E se uma revista de grande circulação constrói perante o público a idéia de que funcionários públicos não podem ter opinião política, aí nós temos não só um problema de inconsistência jornalística, mas um golpe contra a cidadania e o direito de livre manifestação garantido pela Constituição de 88. É uma tentativa de calar a divergência política, é a imposição de uma visão de mundo.

E como fica o funcionário!?
O funcionário do Senado, Carlos Alberto Almeida, conhecido como Beto Almeida, publicou uma carta endereçada a “Isto é” exigindo um direito de resposta. Clique aqui para ler o documento.

E qual o interesse da “Isto é” em prejudicar o funcionário do senado?
São muitos os interesses. Já abordaram o tema Maria Frô; Altamiro Borges e o Rovai.

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