O fantástico caso do Belchior

O programa dominical da TV Globo Fantástico publicou uma “reportagem” dando a entender que o cantor Belchior havia desaparecido misteriosamente. Essa é a tese que a matéria quis mostrar. Mas o fato, bem, os fatos são outros, bem outros… Estaria o fantástico testando uma hipótese? Vejam o artigo enviado pelo jornalista Marcio Sardi ao Boimate News.

***
Esperem aí! O Fantástico soltou a bomba: Belchior está sumido há mais de dois anos. Em que pese a peremptória afirmação, o rapaz latino-americano foi visto em São Paulo, em mais de uma ocasião. Foi
visto no Recife, num evento de cunho socialíssimo, do movimento de pessoas com hanseníase. Bateu bigodes com José Sarney, em Brasília, chegando a ser fotografado. Há relatos de aparições ainda em Salvador
e no Rio de Janeiro. Não só foi visto em todos estes cantos ao longo desses meses de suposto desaparecimento, como virou um verdadeiro cônsul do Brasil no Uruguai, atendendo a caravanas de turistas.

Em todas essas ocasiões, segundo os relatos, posou para fotos; deu autógrafos; virou personagem de vídeo que os anfitriões insistirão em exibir, sem entusiasmo nenhum da plateia; chegou a dar uma palhinha,
com aquele seu toque beatle.

Contra todas as evidências, ou melhor, contra todas as provas materiais, o Fantástico resolveu que Belchior tinha desaparecido. Deve ser a famosa escola das hipóteses testadas. Pois a Globo perdeu
Belchior no dia 23 de agosto e foi encontrá-lo, são e salvo, apenas uma semana depois. Imagino que durante sua aparição, seu nariz tenha atrapalhado as imagens dos canais concorrentes.

A teoria do desaparecimento não só não era verossímil, como tinha rastro algum de verdade. Bastava que o jornalismo global fizesse o que deveria, ou seja, apuração, para derrubar a pauta no nascedouro.
“Belchior está perdido? Vamos apurar!” “Não está perdido, não, vejam esta foto dele do lado do Sarney, em Brasília. Vejam esta matéria em jornais de Pernambuco. Vejam fotos deste evento da OAB.”

O que motiva a invenção de uma pauta? Qual a intenção de brincar em horário nobilíssimo? Não, nem mesmo a desculpa de testar hipóteses cabe neste enredo. A não ser que a Globo queira estudar a tese de que
os telespectadores são burros.

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2 Respostas para “O fantástico caso do Belchior

  1. Tem outro texto muito bom, do Mauro Carrara, no blog do Azenha: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/carrara-e-belchior-o-abduzido/

  2. Priscila Sampaio

    “Desaparecimento de Belchior está cercado de mistério”. Assim, o Fantástico anunciou a primeira reportagem (exibida em 23/08/09) sobre o suposto sumiço do cantor. Mas que mistério é esse? E que desaparecimento houve? A Polícia não estava procurando Belchior, logo ele não estava desaparecido.
    O programa de forma imprecisa quebrou com vários princípios éticos do jornalismo. O principal foi o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros Art 2º – II – a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público. Era verdade que Belchior estava desaparecido? E qual o interesse público em saber sobre as dívidas dele?
    Foi uma série de erros começando pelos entrevistados. Primeiro: as opiniões e entrevistas foram dadas por fãs, advogado da ex-mulher, produtores e primo, em vez dos familiares mais próximos como a esposa ou filhos que provavelmente teriam as informações corretas. Segundo: na entrevista há contradições, onde um entrevistado diz que Belchior está sumido há dois anos e logo após o Fantástico diz que o cantor foi flagrado em abril deste ano em Brasília. Então como ele estava sumido?
    Outro erro evidente foi os julgamentos que “o show da vida” fez ao cantor. Não era necessário expor a vida pessoal dele para o público como abandono de carro, hotel e supostas dívidas. A impressão que tivemos foi que Belchior abandonou tudo como um bom “malandro” e fugiu para algum lugar. Sugeriram ainda que ele teria tido problemas familiares e que poderia estar descontente com a carreira por não ser valorizado. Outra questão incorreta. Quem disse que ele não é valorizado pelo seu trabalho?
    E para finalizar da pior maneira possível a reportagem encerra com a frase “O próprio Belchior, dá como resposta o silêncio e o sumiço”.

    Realmente, a “Revista eletrônica” de todos os domingos rompeu com a ética do jornalismo.

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