O Jornalixo da Veja, a Ética e a Manipulação Midiática

Recentemente o Observatório da Imprensa publicou um artigo original da revista Veja que, surpreendentemente, parecia balanceado e até mesmo honesto. Coisa rara na história da revista, havia espaço para os dois lados da questão. Mas a “honestidade” para por aí. A revista não escondeu seu próprio lado ao chamar aqueles que defendem o protagonismo das redes sociais como “ciber-utópicos”.

De qualquer forma, disse a Veja sobre os “ciber-utópicos”:

A turma dos ciber-utópicos fez seu début em junho de 2009, depois que os iranianos saíram às ruas para protestar contra a eleição fraudulenta que reconduziu Mahmoud Ahmadinejad à presidência do país controlado pela ditadura dos aiatolás. O assunto foi o mais comentado do ano no Twitter, superando até a morte do astro pop Michael Jackson, o que levou os utópicos a cunhar a expressão “revolução do Twitter” e a apostar que essa ferramenta seria responsável por revoluções. O trecho de um editorial do respeitado jornal americano Washington Post captou o clima (otimista) da época: “O imediatismo dos tweets foi emocionante, com um fluxo de atualizações com fotos e vídeos que mostrou um retrato de crise no país. O que estamos vendo é a chama tremulante da liberdade.” Um assessor do ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush chegou a sugerir que o Twitter fosse indicado ao prêmio Nobel da Paz pelo papel na crise. O governo de Teerã, contudo, não caiu: reprimiu os protestos e bloqueou serviços de internet. O episódio deixou a impressão de que a turma dos ciber-utópicos sobrecarregara de expectativas as asas do Twitter, fazendo do microblog a panaceia anti-ditaduras.

Já do lado dos “ciber-céticos”, a Veja cita o onipresente “A Revolução não será tuitada” de Gladwell – que já desmontei em post anterior – e cita ainda o pesquisador iraniano Hamid Tehrani:

A resposta dos ciber-céticos veio na mesma intensidade, em sentido oposto. O primeiro contra-ataque foi comandado pelo pesquisador iraniano Hamid Tehrani, que tentou colocar os fatos ocorridos no Irã em sua real dimensão. “Houve uma sobrevalorização do Twitter. O país contou com menos de 1.000 usuários ativos. O maior volume de informações propagadas no microblog veio do Ocidente, de pessoas que não estavam no local. Quando alguém comentou que havia 700.000 pessoas protestando em frente a uma mesquita, descobriu-se que apenas cerca de 7.000 pessoas compareceram”, escreveu.

Mas esperem, Hamid Tehrani como um ciber-cético?

Para quem não conhece o Hamid, ele é um autor do Global Voices Online e seria no mínimo engraçado que um ativista que usa as redes sociais como plataforma para divulgação da realidade iraniana fosse simplesmente um cético no que tange o uso destas em processos revolucionários e revoltas. Imagine então ser colocado ao lado de alguém como Gladwell!

Quando vi que ele teria sido supostamente entrevistado pela Veja enviei-lhe um e-mail questionando o fato e também questionando se ele havia realmente dito aquilo em qualquer outro lugar.

Conhecendo o histórico de manipulações da Veja, é sempre bom verificar todas as informações.

Eis o que ele me respondeu, em tradução livre:

Se havia sido entrevistado pela Veja ou por algum jornalista brasileiro – “Não, eu não dei nenhuma entrevista a um jornalista brasileiro”

Sobre a frase selecionada pela Veja –  “A questão do Twitter: Eu escrevi um artigo para o Global Voices logo depois de estourar o movimento de protesto no Irã, ‘Mito e realidade sobre o Twitter no Irã'” [o artigo é este, no link, em inglês]

Sobre a interpretação de suas palavras – “O que eu disse e o que sempre digo é que você não sabe realmente quantas pessoas usando o Twitter estão baseadas no Irã. Muitos dos que põem “Irã” em suas contas vivem fora do país e/ou conseguem sua informação de fontes de segunda mão, mais por ligarem para outras pessoas do que por estarem nas ruas.
Eu acho que a Al JAzeera certa vez mencionou que menos de 100 contas do Twitter estavam ativas em Teerã durante as manifestações de 2009.
Na verdade, o Twitter, ao contrário do YouTube e Facebook, não teve um papel significante no Irã. Nunca.”

Tentando entender melhor esta última parte, mandei outro e-mail, questionando o papel do Facebook e do Youtube (e não só do Twitter) ao que o Hamid me respondeu – “Sim, o Facebook e o Youtube tiveram grande papel. O líder da oposição, Moussavi, tinha pelo menos 150 mil fãs no Facebook e os vídeos do Youtube estiveram muito presentes.”

Apenas nesta simples e rápida troca de e-mails podemos ver que o Hamid, nem de longe, é um “ciber-cético”. E tampouco deu qualquer declaração à revista Veja.

Ele tão somente criticou o ibope dado unicamente ao Twitter, mas defende a importância das mídias sociais como um todo, em especial do Facebook e do YouTube. Apenas disso já notamos que a reportagem da Veja não é apenas tendenciosa, mas foi mal feita e as informações não foram devidamente apuradas. O e-mail do Hamid está disponível para quem quiser em sua página do Global Voices e não custava nada apurar antes de publicar.

No artigo que Hamid cita em seu e-mail, há de fato uma crítica ao poder do Twitter. Fala-se que ele leva a conclusões erradas muitas vezes, mas mesmo assim Hamid o considera uma forma interessante de espalhar notícias para o mundo, de dar visibilidade aos protestos. Ele ainda afirmou que:

Twitter and Facebook along with reformist websites such as Ghlamnews help communicate the decisions of reformist leaders and pass on the message.

Ou seja, que o Twitter, o Facebook e os sites reformistas ajudaram a comunicar as decisões dos líderes reformistas e ajudaram a passar a mensagem.

Para quem ainda pensa no Hamid como um “ciber-cético”, repasso:

Most people tweet what they read on websites, and have also shared useful tips and information to help Iranians circumvent internet filtering and censorship. In other words tweeting helps create an information pool.

“Muitas pessoas tuitaram o que leram em websites, e também compartilharam dicas úteis e informação para ajudar os iranianos a contornar a censura e filtragem da rede. Em outras palavras, tuitar ajuda a criar uma rede de informações.”

Mas para quem pensa que acabaram os problemas, ledo engano.

Restaurante canibal: jornais do mundo todo também cometem barrigada

O jornalista Breno Altman denunciou uma verdadeira fraude que circulou em diversos veículos da mídia internacional. Leiam o artigo, publicado originalmente no site Opera Mundi.

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Mídia, o prato do restaurante canibal

7/08/2010 – 09:14 | Breno Altman | São Paulo

por Breno Altman, em Opera Mundi

O trabalho eficaz de dois jornalistas, Pedro Aguiar e Laisa Beatris, profissionais da redação de Opera Mundi, trouxe ontem (26/08) a público caso vergonhoso de colonialismo cultural e abuso da boa-fé dos leitores. A história, que pode ser lida no artigo “Mídia internacional ignora indícios de fraude e publica notícia sobre restaurante canibal”, revela o estado de indigência que afeta parte da imprensa mundial.

Tudo começou quando um político alemão denunciou, ao diário sensacionalista Bild, a existência de restaurante brasileiro, chamado Flimé, no estado de Rondônia, que oferecia carne humana e estaria planejando abrir filial em Berlim. O vereador Michael Braun, dirigente local da União Cristão-Democrática, alegando ter recebido informação de eleitores, protestou contra as intenções do famigerado estabelecimento.

A origem primária das denúncias, logo se soube, estaria em vídeo e página divulgados pela internet. Os autores, provavelmente de nacionalidade portuguesa, talvez na intenção de se vingar das piadas contra seus patrícios, resolveram armar pegadinha contra os brasileiros. No jargão da rede, chama-se essa informação forjada de hoax.

O mais incrível é que a existência do restaurante canibal imediatamente se espalhou entre diversas agências e veículos do planeta. O inglês The Guardian, a espanhola Efe, a italiana Ansa, a alemã Der Spiegel e o português Expresso estão entre as publicações que caíram no engodo. Também comprou gato por lebre a brasileira Folha.com. A reportagem de Opera Mundi provou que não há canibalismo nem restaurante algum.

Aparentemente nenhuma das redações enroladas pelo conto dos portugueses se deu ao trabalho de apurar história tão escabrosa. O restaurante não foi checado. Não se analisou com rigor a gravação que circulou no You Tube. A página web que anunciava as estranhas iguarias tampouco recebeu o devido escrutínio.

Não é a primeira vez que importantes meios de comunicação metem o pé na jaca. A revista Veja, em abril de 1983, publicou matéria anunciando a fusão da carne de boi com o tomate, depois de cair em uma brincadeira da revista inglesa New Science, preparada para celebrar o dia da mentira. O caso Boimate, como é conhecido, entrou para a mitologia jornalística como a maior “barriga” (notícia inverídica) de todos os tempos. O affair Flimé tem grandes chances de roubar-lhe o lugar no pódio.

O problema não é apenas a preguiça dos jornalistas que deram ares de verdade à denúncia fajuta. A substituição da informação pelo espetáculo, de fato, tem poder tóxico sobre a inteligência da imprensa e contamina sua disposição de pegar no batente. Mas, é evidente, nesta situação também jogou peso decisivo a arrogância colonial dos brancos de olhos azuis. Canibalismo no Brasil? Terceiro Mundo? Terra de índios, negros e mulatos? Pau na máquina, que se não for verdadeiro, ao menos está bem contado.

A barrigada, que deveria provocar indignação da mídia brasileira e resposta à altura do governo, porque difama a imagem internacional do país, diz muito a respeito de como funcionam os monopólios mundiais da comunicação. Seus donos e operadores, de tão imbuídos do papel de vanguarda cultural do colonialismo, não perdem sequer uma história da carochinha para demonstrar a suposta primazia civilizatória das nações ricas sobre os povos do sul.

*Breno Altman é jornalista e diretor editorial do site Opera Mundi

Dia Mundial de Combate à Homofobia

Hoje é o dia de combate mundial à homofobia. Não é à toa que a data existe – o preconceito contra homossexuais é uma dura realidade que deve ser combatida mundialmente. Vale lembrar que o Brasil faz parte desse mundo – parece que alguns órgãos da imprensa brasileira insistem em ignorar solenemente que tal preconceito existe. Pior: a revista Veja publicou uma matéria querendo mostrar que “não há dramas” na nova geração – leia aqui a matéria “Ser jovem e gay. A vida sem dramas”, edição nº 2164, 14 de maio.

A tese da reportagem é extremamente frágil (para dizer o mínimo). Bastaria uma simples “googlada” pra encontrar, por exemplo, experiências como a de Edith Modesto, mãe de um homossexual e fundadora da Associação Brasileira de Pais e Mães de Homossexuais, entidade que trabalha justamente para auxiliar pais e mães a lidarem com a notícia de seus filhos que se assumem homossexuais. Bastaria algumas leituras dos depoimentos desses pais para se chegar ao óbvio: a homossexualidade ainda é um assunto extremamente complexo e doloroso para famílias, cercado de preconceitos de todos os matizes (religiosos, morais, sociais…) e que carece de muito esclarecimento por parte dos órgãos da imprensa.

A Veja perdeu a oportunidade de esclarecer seus leitores, inventando um mundo que não existe. A matéria afirma, por exemplo, que “Declarar-se gay em uma turma ou no colégio de uma grande cidade brasileira deixou de ser uma condenação ao banimento ou às gozações eternas”. Como o repórter pode provar essa afirmação?! De que mundo o repórter está falando?! Para ficar em um exemplo factual que contraria essa tese, um jornal dos alunos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP recentemente causou repúdio ao realizar uma promoção oferecendo um convite a uma “festa brega” aos estudantes do curso que, em troca, jogarem fezes em um gay. Sim, isso acontece no Brasil, na tal “geração tolerância” que prega a matéria da revista Veja.

Neste outro parágrafo, o grau de imprecisão é gritante “Antes fonte de tormento para alunos homossexuais, alvo de piadas, quando não de surras e linchamentos, o colégio se tornou um desses lugares onde, de modo geral, impera a boa convivência com os gays. Um sinal disso é que a ocorrência de casos de bullying por esse motivo tem caído gradativamente.” Reparem que a matéria não diz em que pesquisa ou artigo científico levantou essa estatística, ou quais escolas pesquisou.

A pior parte da matéria, na minha humilde opinião, é esta aqui: “Os jovens que aparecem nas páginas desta reportagem, que em nenhum instante cogitaram esconder o nome ou o rosto, são o retrato de uma geração para a qual não faz mais sentido enfurnar-se em boates GLS (sigla para gays, lésbicas e simpatizantes) – muito menos juntar-se a organizações de defesa de uma causa que, na realidade, não veem mais como sua.” Para quem nunca escreveu matéria na vida, essa parte parece normal, sem erros. Mas sutilmente houve um direcionamento por parte do repórter: ele condensou a “fala” de todos os entrevistados na tese que ele queria provar. Isso é um indício de que o repórter já saiu a campo (para as ruas) para buscar uma amostra de jovens que pudessem corroborar com uma tese: a de que as lutas por direitos LGBT é desnecessária. Os jovens que ele encontrou que são militantes, não apareceram na reportagem. Isso se chama omissão.

Quer dizer que não existem mais jovens brasileiros assumidos e ativistas?! Quer dizer que esses jovens não vão crescer, compartilhar plano de saúde, formar família, ter direito à pensão em caso de morte do companheiro(a), e, de repente, descobrirem que precisam se engajar na causa?

Ok. Vou ficar por aqui. Passo a palavra para a jornalista e poeta Camila Marins, que publicou um belo artigo sobre este tema no no blog: http://camilamarins.blogspot.com/ e que eu reproduzo a seguir.

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Todo REPÚDIO à revista Veja. Viva a luta do movimento LGTTB!
Camila Marins – jornalista e poeta

10/05/2010

A revista Veja publicou nessa semana a seguinte matéria: “Ser jovem e gay. A vida sem dramas.” A reportagem – por meio de depoimentos de jovens de classe média e classe média alta – aponta que os jovens gays têm assumido a homossexualidade sem qualquer razão para temer ou esconder. A revista ainda mostra que ser militante da causa é quase ultrapassado e que a luta é desnecessária. O que a matéria não registra ficou na marginalidade da informação: homofobia existe.

O estranho é que não há um negro ou uma negra na matéria. Ou então jovens pobres. E as travestis? Por que elas não conseguem emprego? Imaginem só uma mulher afirmar que é negra e lésbica. Demais para os leitores de Veja? De acordo com dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), o Brasil é o campeão mundial de crimes contra lésbicas, gays, travestis, transexuais e bissexuais (LGTTB’s): um assassinato a cada dois dias, aproximadamente 200 crimes por ano, seguido do México com 35 homicídios e os Estados Unidos com 25.

Não precisamos apenas de dados para constatar a homofobia. Quantas piadas, xingamentos e brincadeirinhas estão carregadas de preconceito? Basta ligar a televisão que podemos assistir um general das Forças Armadas (mesmo exemplo dado pela revista) afirmando sua posição contrária à presença de gays na instituição. Pior ainda, que País é este que respalda Marcelo Dourado como campeão do Big Brother Brasil e queridinho da população brasileira? Isso porque Dourado, além de comentários e atitudes machistas e homofóbicas, afirmou que heterossexuais não pegam Aids. Fato que fez com que a Globo utilizasse o mesmo espaço para esclarecimentos do Ministério da Saúde.

Se tudo está mais tranquilo, livre de preconceito e agressões, por que o Brasil não aprova a Lei 122/06 que criminaliza a homofobia? Esse preconceito velado é uma das piores tendências e a revista Veja, inegavelmente nojenta, tenta convencer a população que militar no movimento LGTTB é ultrapassado, ‘over’. Ninguém esconde orientação sexual embaixo de bandeiras. Ao contrário, militamos por uma sociedade justa e livre de preconceitos. Desqualificar a luta do movimento LGTTB é, no mínimo, ignorância. Foi por meio da luta do movimento que a homossexualidade deixou de ser considerada doença e perversão e, até hoje, é referência histórica na luta contra a homofobia.

Se não há preconceito, por que pessoas do mesmo sexo não andam sequer de mãos dadas em público? Por que travestis sofrem violência física e moral todos os dias? Por que as travestis não conseguem emprego ou o simples direito de mudar de nome? Por que as mulheres lésbicas sofrem com a falta de um atendimento específico nos hospitais e postos de saúde – elas mal são tocadas, principalmente as negras, além de sofrerem com péssima orientação médica? Por que homens gays são massacrados em instituições, seja exército ou universidade? Por que casais gays não podem se casar ou adotar filhos? Eu mesma, só conheci uma travesti com um emprego que não fosse profissional do sexo. Ela era operadora de telemarketing… Mais uma vez, escondida.

A luta contra a homofobia não deve parar e cada um de nós deve lutar por um mundo melhor livre de opressões. Todo REPÚDIO à revista Veja. Viva a luta do movimento LGTTB!

Deu no Observatório da Imprensa: Estadão errou e não se retratou

Para quem não conhece, o Observatório da Imprensa é um dos poucos portais brasileiros que discute questões jornalísticas com profundidade e diversidade. Naquele espaço há quem defenda a liberdade absoluta de imprensa, e há quem defenda uma liberdade com a devida responsabilidade.

Foi lá que o renomado jurista e professor emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, Dalmo Dallari, publicou um artigo reclamando da falta de retratação do jornal “O Estado de S.Paulo” (também conhecido como “Estadão”) em relação a uma informação errada que circulou em uma matéria sobre o caso do Batistti no dia 17 de abril. Seguno Dalmo Dallari, até hoje (5 de maio) nenhuma errata foi publicada, a despeito da carta que ele enviou à redação no dia 19 de abril, pedido de correção que foi reiterado no dia 22.

Como se trata de uma questão jurídica um pouco complexa, vou reproduzir na íntegra o artigo de Dalmo Dallari. Percebam que é uma falha que pode ser corrigida sem nenhum problema por uma errata. Fica a pergunta: quando é que os leitores do Estadão vão ter acesso à informação correta? Ao final do texto, Dallari ainda dá uma elegante alfinetada: “A recusa de publicação de meu pedido de correção da informação errada é uma forma de censura, surpreendente num órgão de imprensa que insiste em se colocar como vítima da censura.”

Clique aqui para acessar o texto do Dallari direto na fonte ou leia a seguir.

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Liberdade com responsabilidade
Por Dalmo de Abreu Dallari em 5/5/2010

A liberdade de imprensa é necessidade essencial da sociedade moderna, quando se pensa em sociedade democrática, e por esse motivo essa liberdade é consagrada como um direito fundamental. E aqui é oportuno acentuar que esse direito, antes de ser dos proprietários ou dirigentes dos órgãos de divulgação, é um direito da cidadania, que necessita da imprensa livre para obter informações corretas e precisas sobre fatos e questões que apresentem algum interesse para a convivência humana, assim como para expender opiniões e tomar conhecimento do pensamento de outras pessoas e de grupos e instituições sociais sobre dados e perspectivas que tenham essa relevância.

Por esses motivos, a liberdade de imprensa implica uma responsabilidade, compreende deveres, entre os quais tem extrema importância o dever de verdade – de não transmitir informações falsas ou maliciosamente distorcidas. E, quando divulgada uma informação que depois de publicada se verifica que não é verdadeira, é dever do órgão de imprensa, em respeito aos direitos da cidadania, reconhecer o erro e publicar uma correção, com a mesma ênfase dada à publicação da informação errada.

Sentença definitiva

Um fato bem recente, envolvendo um dos principais jornais brasileiros, torna oportunas e necessárias essas observações. No dia 17 de abril deste ano, o jornal O Estado de S.Paulo publicou matéria sobre o caso que envolve o italiano Cesare Batistti, que, com 20 anos da idade, foi ativista político na Itália, nos chamados “anos de chumbo”.

Refugiado na França, no ano de 1983 foi julgado à revelia por um tribunal italiano que, com base exclusivamente no depoimento de um “arrependido”, um antigo companheiro de Batistti que se valeu da “delação premiada” para entregar companheiros em troca de benefícios pessoais, condenou Batistti à pena de prisão perpétua. Refugiado no Brasil, ele está preso em Brasília, à espera da decisão final, que compete exclusivamente ao presidente da República, sobre um pedido de extradição formulado pelo governo italiano.

Deixando de lado vários outros aspectos juridicamente relevantes, o que aqui se quer colocar em evidência é o fato de que o Estado de S.Paulo, que já publicou várias matérias sobre o caso Batistti, voltou a colocar o assunto em destaque na edição de 17 de abril. Comentando a situação atual do italiano no Brasil, informou que o presidente Lula tem duas opções, ao decidir sobre o pedido de extradição. Uma delas será decidir negativamente ao pedido do governo italiano, hipótese em que Cesare Batistti poderá ficar vivendo no Brasil. A outra possibilidade, segundo o jornal, “é entregá-lo para a Itália, onde cumprirá cerca de 28 anos de prisão”.

Aí está uma informação errada, desprovida de qualquer fundamento, com a agravante de que esse erro oculta um dado jurídico de extrema relevância. Com efeito, Batistti foi condenado à pena de prisão perpétua, pena que, assim como a pena de morte, é expressamente vedada pela Constituição brasileira, por disposição do inciso XLVII, letra “b”, do artigo 5º. Em termos jurídicos, Cesare Batistti não pode ser extraditado para a Itália para cumprir uma pena que é proibida pela Constituição brasileira. E a decisão do tribunal italiano há muito transitou em julgado, tornou-se definitiva, não podendo ser modificada por qualquer órgão do governo italiano, seja ele do Executivo ou do próprio Judiciário.

Papel de vítima

Em vista desse erro patente, que induzirá muitos leitores a avaliar de maneira incorreta uma decisão do presidente da República, enviei ao jornal, para a Central de Atendimento ao Leitor, o seguinte esclarecimento, com pedido de publicação:

“A matéria sobre o caso Batistti, publicada na edição do dia 17, à página A10, contém um erro grave. Com efeito, ali foi dada a informação de que uma das decisões possíveis do presidente Lula é `entregá-lo para a Itália, onde cumprirá cerca de 28 anos de prisão´. Essa informação está errada, pois Batistti foi condenado por um tribunal italiano à pena de prisão perpétua e essa decisão já transitou em julgado, é definitiva. Pela Constituição italiana, nem o Poder Executivo nem o Judiciário podem alterar uma decisão judicial transitada em julgado. Assim, pois, é importante que seja publicada essa retificação, pois se trata de matéria de interesse público, sendo necessário que os leitores do Estado estejam corretamente informados. Solicito, portanto, a publicação dessa retificação, que não pode ficar sujeita a qualquer espécie de censura.”

Esse pedido de publicação do esclarecimento foi seguido da indicação de meu nome, com RG, endereço e número de fax. Enviado o pedido no dia 19 de abril, foi reiterado no dia 22, sem que até agora tenha sido publicado qualquer esclarecimento corrigindo a informação errada.

É curioso que o mesmo jornal vem publicando diariamente uma nota dizendo-se censurado e impedido de publicar certas informações constantes de um inquérito da Polícia Federal, quando, na realidade, essas informações já foram publicadas por vários outros órgãos da imprensa, não havendo agora qualquer interdição para que O Estado de S.Paulo as publique.

A recusa de publicação de meu pedido de correção da informação errada é uma forma de censura, surpreendente num órgão de imprensa que insiste em se colocar como vítima da censura.

Alexandre Garcia e a ilegalidade em Cuba

Difícil enquadrar o comentário do comentarista Alexandre Garcia, hoje, no Bom Dia (sic) Brasil.

Segundo a notória figura, falando sobre Lan Houses – e demonstrando total ignorância, como lhe é típico -, a internet, seu uso, incentiva a prática de crimes, como a pedofilia, roubo de senhas e etc.

Exato, usar um computador é o mesmo que incentivar o crime. Não é de surpreender que, após uma reportagem sobre a tentativa de se facilitar o processo de legalização e disseminação das Lan Houses, a Globo use seu cão de guarda para atacar a idéia. Ataca porque a popularização do acesso e a transformação destas casas em centros de educação, ensino e disseminação de informações – mais do que apenas um ponto para conexão e jogos -, como propõe o Deputado Paulo Teixeira (PT-SP), iria propiciar à população o acesso à informações que a Rede Globo não propicia, na verdade, esconde.

A Globo não quer que o pobre tenha acesso livre, irrestrito e tenha acesso à informação. Isto iria implodir sua credibilidade (sic). Hoje, a franca maioria das Lah Houses são ilegais, principalmente graças às exigências risíveis de estados e prefeituras. Claro que, todos sabemos, muitas das exigências impostas por uma elite política temerosa do poder que a rede dá aos seus usuários que sabem usá-la.

Mas a coisa ainda piora. O mesmo piadista não poderia terminar de falar sem uma declaração ainda mais infeliz, segundo Alexandre Garcia, só há vantagem em Lan House ilegal em Cuba!

Sim, segundo o infeliz, só nesses lugares os Cubanos podem ter liberdade e acesso livre à rede!

Como uma figura destas pode falar o que bem entende na TV? Defender a ilegalidade no país dos outros pode? Dar declarações estapafúrdias e criminosas pode?

Alexandre Garcia é um criminoso.

Veja coloca frase na boca de especialista

Atualização do dia 5 de maio: a Associação Brasileira de Antropologia também publicou carta pedindo para a revista Veja se retratar – leia aqui.

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro é a nova vítima da “reportagem” cometida pela revista Veja. Os autores da matéria “A farra da antropologia oportunista” (Veja ano 43 nº 18, de 05/05/2010), colocaram na boca de Viveiros a seguinte afirmação: “Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original” .

Viveiros de Castro é um dos cientistas mais respeitados da Antropologia. Ele enviou uma carta para os editores da Veja reclamando que a frase jamais foi dita por ele – mensagem que foi reproduzida no site do Nassif.

A revista Veja, por sua vez, não admitiu a falha – limitou-se a responder, de forma confusa, que resumiu o pensamento do autor com base em um texto que Viveiros teria encaminhado para a Veja, quando este foi procurado pelos repórteres. Leia aqui a resposta da Veja, também publicada no site do Nassif.

O autor, no entanto, reiterou que a tal frase nunca foi dita por ele. Também esclareceu que foi sim, procurado pela Revista, mas que ele se negou a dar entrevista, pedindo aos repórteres que procurassem seus textos já publicados, que, por serem públicos, podem ser citados. A réplica do antropólogo foi publicada no site do Nassif.

Até onde vai o absolutismo da imprensa? Pode um veículo, simplesmente, assassinar reputações, enterrar fatos e distorcer verdades, sem sofrer nenhuma punição? A sociedade precisa debater em que pé de liberdade quer sua imprensa: baseada no respeito, seriedade, credibilidade ou na base do vale-tudo, da mentira, da invenção? Acho que o debate precisa continuar, sem medo de sermos rotulados de “censores”. Calar esse debate é um incentivo à ignorância e à barbárie!

PNDH-3 e as mentiras de Alexandre Garcia

Publicado originalmente no Blog do Tsavkkko – The Angry Brazilian

“Amplo debate nacional? Eu não ouvi falar…”
Palavras de Alexandre Garcia no Bom (péssimo) dia Brasil.

Link para o vídeo das barbaridades do “jornalista”

É assim que começa o falatório absurdo de Alexandre Garcia, para os que tiveram estômago de aguentar tantas barbaridades, parabéns.

O colunista (sic) da Globo, representante ilustre do PIG, talvez não saiba, mas foram realizadas, desde 2003, mais de 50, repito, CINQUENTA, conferências nacionais sobre Direitos Humanos que culminaram no PNDH-3.

“O texto incorporou também propostas aprovadas em cerca de 50 conferências nacionais realizadas desde 2003 sobre tema como igualdade racial, direitos da mulher, segurança alimentar, cidades, meio ambiente, saúde, educação, juventude, cultura, etc

Além destas CINQUENTA conferências, dezenas de consultas locais foram realizadas com a participação de 14 mil pessoas – sem dúvida, alexandre Garcia não era uma delas, afinal, não se interessa pelo tema. Tampouco a figura se dignou a dar uma rápida olhada no documento, disponível por quase um ano no site da SEDH.

A participação social na elaboração do programa se deu por meio de conferências, realizadas em todos os estados do país durante o ano de 2008, envolvendo diretamente mais de 14 mil pessoas, além de consulta pública. A versão preliminar do programa ficou disponível no site da SEDH durante o ano de 2009, aberto a críticas e sugestões.

Além disso, não sabe o piadista que 31 dos 37 ministros assinaram o documento? Como assim ninguém foi consultado?

Realizaram-se 137 encontros prévios às etapas estaduais e distrital, denominados Conferências Livres, Regionais, Territoriais, Municipais ou Pré-Conferências. Participaram ativamente do processo cerca de14 mil pessoas, reunindo membros dos poderes públicos e representantes dos movimentos de mulheres, defensores dos direitos da criança e do adolescente, pessoas com deficiência, negros e quilombolas, militantes da diversidade sexual, pessoas idosas, ambientalistas, sem-terra, sem-teto, indígenas, comunidades de terreiro, ciganos, populações ribeirinhas, entre outros.

Fica clara a tentativa torpe da Globo e do PIG em geral de manipular, mentir descaradamente sobre o PNDH-3 através de todos os meios possíveis.

O PIg inteiro, aliás, sabe que o Programa Nacional de Direitos Humanos não é invenção do atual governo, mas parecem esquecer-se convenientemente. Diz Paulo Sérgio Pinheiro, insuspeito:

“Não foi o presidente Lula quem inventou isso. “Essa é a terceira edição do
programa. Os dois anteriores, lançados em 1996 e em 2002, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, tinham a mesma abrangência do programa que está sendo debatido agora. E tanto Lula quanto Fernando Henrique acertaram, porque direitos humanos não abarcam apenas direitos civis e políticos, como se imagina. Eles abrangem também questões como a fome, o racismo, gênero, distribuição de renda, salário, acesso à cultura, proteção das crianças contra a violência e muitas outras coisas.”

“Tudo foi feito de maneira séria e democrática. A conferência nacional de direitos humanos, realizada em dezembro de 2008 e de onde saíram as diretrizes do programa, foi precedida de conferências estaduais por todo o País. Os debates foram abertos e sem cartas marcadas. Em São Paulo a conferência foi organizada pelo governo de José Serra, com o secretário de Justiça, Luiz Antonio Guimarães Marrey”.  “Mais tarde foram redigidas quase uma dúzia de minutas, para novas discussões. Todos os ministérios discutiram e concordaram, com exceção de Nelson Jobim.

Em país decente isto seria crime. Isto não é jornalismo. E depois ainda tentam me convencer da necessidade de diploma para exercer o jornalismo…. É preciso de diploma para mentir?